Laudo complementar do Instituto de Criminalística afastou a hipótese de suicídio; marido da soldado continua preso e Conselho da PM passou a ter acesso às provas do processo
São Paulo — 27 de setembro de 2026
A investigação sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, entrou em uma nova etapa nas últimas semanas. Um laudo complementar do Instituto de Criminalística de São Paulo concluiu que os vestígios encontrados no apartamento onde ela foi baleada são incompatíveis com a hipótese de suicídio e indicam a intervenção de uma segunda pessoa.
Gisele foi encontrada ferida com um disparo na cabeça em 18 de fevereiro, no apartamento onde morava com o então companheiro, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Ela não resistiu aos ferimentos.
Inicialmente, o caso foi comunicado às autoridades como suicídio. Com o avanço da investigação, porém, essa hipótese passou a ser contestada pela perícia e pela Polícia Civil. Geraldo acabou preso e tornou-se réu por feminicídio e fraude processual.
Laudo complementar muda o peso da investigação
O documento mais recente, elaborado pelo Núcleo de Perícias em Crimes Contra a Pessoa do Instituto de Criminalística e assinado no início de setembro, analisou novamente os vestígios encontrados no local da morte.
A conclusão foi direta: os padrões das manchas de sangue e outros elementos materiais examinados contradizem a hipótese de um evento suicida.
A perícia também apontou que a hipótese de participação de uma segunda pessoa permaneceu compatível com o conjunto dos vestígios analisados.
O resultado é relevante porque o novo exame não se limita a uma interpretação das circunstâncias: ele se baseia na análise técnica da cena e dos vestígios preservados no processo.
Lesões já haviam levantado dúvidas sobre a versão inicial
Antes mesmo do laudo complementar, exames do Instituto Médico Legal já haviam identificado lesões no rosto e na região cervical de Gisele.
Após a exumação, um novo exame descreveu lesões contundentes compatíveis com pressão digital e escoriações provocadas por unhas.
Esses elementos foram considerados pela investigação incompatíveis com a hipótese de que Gisele tivesse simplesmente tirado a própria vida.
A Polícia Civil concluiu o inquérito em março e indiciou Geraldo por feminicídio e fraude processual. Ele foi preso em 18 de março, em São José dos Campos.
Intervalo entre o disparo e o pedido de socorro
Outro ponto analisado durante a investigação foi a diferença entre o horário em que uma vizinha relatou ter ouvido o disparo e o momento em que o socorro foi acionado.
Segundo informações reunidas no processo, a testemunha afirmou ter ouvido o tiro por volta das 7h28. O acionamento do Centro de Operações da Polícia Militar ocorreu às 7h57.
O intervalo de aproximadamente meia hora passou a fazer parte das questões examinadas pelos investigadores.
Também foram analisadas imagens e depoimentos relacionados à preservação da cena do crime e à movimentação das pessoas que estiveram no apartamento após o disparo.
Interrogatório de Geraldo foi adiado novamente
O interrogatório judicial de Geraldo Leite Rosa Neto, que já havia sido adiado anteriormente, está agora marcado para 5 de outubro de 2026, às 13h.
A defesa pediu a mudança da data para que pudesse ter acesso e analisar elementos relacionados à perícia, incluindo gravações e vídeos que integram o material técnico.
A Justiça aceitou o pedido, considerando necessário assegurar o direito de defesa do réu.
Geraldo nega ter matado Gisele e mantém a versão de que a policial cometeu suicídio.
A defesa também questionou aspectos dos laudos periciais. Em depoimento à Corregedoria, segundo informações divulgadas pela imprensa, Geraldo chegou a levantar a possibilidade de que as marcas encontradas no corpo de Gisele tivessem sido produzidas posteriormente pela família ou por representantes dela. Não foram apresentadas, publicamente, provas que sustentem essa acusação.
Conselho da PM recebeu autorização para acessar as provas
Uma das atualizações mais recentes ocorreu em 21 de setembro, quando a Justiça de São Paulo autorizou o compartilhamento das provas do processo criminal com o Conselho de Justificação da Polícia Militar.
O colegiado analisa a situação funcional de Geraldo e poderá decidir, dentro do procedimento administrativo, sobre a permanência dele na corporação e questões relacionadas ao posto e à patente.
A decisão também determinou o encaminhamento de elementos produzidos no Inquérito Policial Militar e em procedimentos administrativos para os autos da ação criminal.
Isso significa que as provas produzidas nas diferentes frentes de investigação poderão ser confrontadas dentro dos respectivos processos.
A medida, entretanto, não representa uma decisão de expulsão ou perda de patente. O procedimento administrativo ainda precisa seguir seu curso.
Geraldo foi transferido para a reserva
Outro ponto importante ocorrido durante o processo foi a transferência de Geraldo para a reserva da Polícia Militar.
A medida foi oficializada em abril e, na estrutura militar paulista, equivale à aposentadoria. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, entretanto, a passagem para a reserva não encerra o procedimento administrativo que pode resultar em perda do posto e da patente.
O Conselho de Justificação continua responsável por analisar a situação funcional do oficial.
O processo criminal continua
Na Justiça, Geraldo permanece preso preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, em São Paulo.
A prisão já foi questionada pela defesa em diferentes instâncias. O Superior Tribunal de Justiça manteve a situação processual em decisões anteriores.
A Justiça também rejeitou pedido da defesa para uma absolvição sumária, permitindo que o processo continuasse para a fase de instrução.
Durante as audiências realizadas ao longo do ano, testemunhas foram ouvidas e elementos da investigação passaram a integrar o processo que será submetido à análise judicial.
O que está confirmado até agora
O que se sabe, com base nos elementos divulgados pelas autoridades e documentos periciais citados no processo, é que:
- Gisele Alves Santana morreu após ser atingida por um tiro na cabeça em 18 de fevereiro;
- ela estava no apartamento onde morava com Geraldo Leite Rosa Neto;
- o caso foi inicialmente comunicado como suicídio;
- a Polícia Civil posteriormente afastou essa hipótese;
- exames do IML identificaram lesões no rosto e no pescoço;
- Geraldo foi indiciado por feminicídio e fraude processual;
- ele foi preso em 18 de março;
- tornou-se réu no processo criminal;
- o laudo complementar do Instituto de Criminalística apontou incompatibilidade entre os vestígios e a hipótese de suicídio;
- o mesmo laudo indicou que a hipótese de intervenção de uma segunda pessoa permanece compatível com os elementos analisados;
- Geraldo continua negando o crime;
- o Conselho de Justificação da PM passou a ter acesso às provas do processo criminal;
- o interrogatório judicial do réu está marcado para 5 de outubro.
O que ainda precisa ser esclarecido
Apesar dos avanços, o processo ainda não chegou a uma sentença.
A perícia estabeleceu elementos importantes sobre a dinâmica da morte, mas a definição da responsabilidade criminal de Geraldo caberá à Justiça.
Também será necessário acompanhar o interrogatório de outubro, os próximos atos do processo e o procedimento administrativo da Polícia Militar.
O caso, portanto, ainda está em andamento e novas informações podem alterar a compreensão sobre determinados pontos da investigação.
Por enquanto, o principal avanço é a consolidação, no campo pericial, da conclusão de que a hipótese de suicídio não é compatível com o conjunto de vestígios analisados, enquanto Geraldo permanece preso e responde judicialmente pela acusação de feminicídio e fraude processual.
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