Caracas, 9 de abril de 2026 – Tensões voltaram a marcar as ruas da capital venezuelana nesta quinta-feira, quando duas convocações distintas levaram milhares de pessoas às ruas em manifestações com pautas opostas, mas que se cruzaram no mesmo dia.
De um lado, a Coalizão Sindical Nacional, liderada pelo dirigente José Patines, convocou trabalhadores para marchar em direção ao Palácio de Miraflores exigindo respostas imediatas à grave crise salarial e econômica que persiste no país. Do outro, o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), por meio do ministro Diosdado Cabello, organizou uma mobilização para comemorar os 20 anos da Lei Orgânica dos Conselhos Comunais e fazer um “chamado à paz”.
Segundo relatos de participantes e lideranças sindicais, os trabalhadores – entre eles professores, enfermeiros e servidores públicos – tentaram avançar rumo à sede do governo interino para entregar suas reivindicações. As forças de segurança, incluindo a Polícia Nacional Bolivariana e elementos da Guarda Nacional Bolivariana, montaram bloqueios e utilizaram gás lacrimogêneo para dispersar grupos que romperam cordões de isolamento. Imagens que circulam nas redes sociais mostram momentos de confronto pontual, com manifestantes atirando pedras e garrafas enquanto a polícia respondia com spray de pimenta e bombas de gás.
A presidente da Associação de Enfermagem de Caracas, Ana Rosario Contreras, denunciou que, em tentativas anteriores de mobilização, os sindicalistas foram impedidos de chegar a órgãos públicos e tratados como “cidadãos de segunda classe”. A convocação sindical enfatiza que o protesto é um direito constitucional e que a população não pode ser criminalizada por exigir condições dignas de trabalho.
Paralelamente, o ato convocado pelo chavismo reuniu militantes do PSUV e movimentos sociais no centro da cidade. Diosdado Cabello afirmou que a marcha busca “reconhecer a lei dos conselhos comunais” e reforçar a unidade em um momento de instabilidade política. A coincidência das datas gerou alertas de possíveis provocações, conforme apontaram analistas e dirigentes opositores.
O pano de fundo é o cenário de três meses após a operação militar norte-americana de 3 de janeiro de 2026, que resultou na captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores. Desde então, Delcy Rodríguez assumiu como presidente interina e o país vive um período de transição marcado por protestos de setores chavistas pedindo o retorno de Maduro e, simultaneamente, por mobilizações de trabalhadores e estudantes que cobram melhorias salariais e serviços públicos, independentemente da orientação política.
Especialistas em direitos humanos acompanham a situação com preocupação, lembrando o histórico de uso excessivo da força por parte de órgãos de segurança em protestos anteriores. Até o momento, não há balanço oficial de feridos ou detidos nesta quinta-feira, mas organizações sociais relatam ao menos detenções pontuais durante os confrontos.
A jornada de hoje reflete a complexidade da Venezuela atual: um país dividido entre demandas econômicas urgentes e disputas políticas profundas, onde a rua continua sendo o principal palco de expressão – e de tensão.
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