Países do Golfo reduzem confiança nos EUA, mas mantêm alianças militares com Washington

TimeCras
Roberto Farias
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Imagem Ilustrativa IA

Guerra com o Irã acelera a busca por novas garantias de segurança no Oriente Médio, enquanto Arábia Saudita e outros países preservam a cooperação militar com os Estados Unidos


Brasília, 4 de setembro de 2026 — Os países do Golfo Pérsico estão reavaliando sua dependência dos Estados Unidos em matéria de segurança, em meio à prolongada crise militar envolvendo Washington, Israel e Irã. O conflito aumentou as preocupações sobre a capacidade dos EUA de impedir ataques contra seus parceiros regionais e acelerou a busca por novas formas de defesa.

A mudança, entretanto, não representa uma ruptura com Washington. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait e Omã continuam mantendo relações estratégicas com os Estados Unidos, enquanto ampliam simultaneamente seus contatos militares e diplomáticos com outras potências.

O movimento pode ser resumido como uma estratégia de diversificação da segurança, e não de abandono da aliança americana.

A guerra mudou o cálculo dos países do Golfo

Durante décadas, os Estados Unidos foram o principal garantidor externo da segurança das monarquias do Golfo. Bases militares, inteligência, defesa aérea, treinamento e fornecimento de armamentos fizeram de Washington um elemento central da arquitetura militar regional.

A guerra com o Irã, porém, expôs uma vulnerabilidade: mesmo países que mantêm estreita cooperação com os EUA podem ser atingidos por mísseis, drones e ataques contra sua infraestrutura.

O resultado foi uma crescente preocupação entre governos árabes sobre os riscos de depender exclusivamente de uma potência externa.

Análises recentes apontam que os países do Golfo passaram a buscar maior autonomia e novas parcerias, mas também mostram que suas próprias capacidades defensivas funcionam melhor quando integradas aos sistemas americanos, britânicos e de outros parceiros. 

Arábia Saudita amplia alternativas militares

Um dos sinais mais importantes dessa transformação foi o acordo firmado em 7 de agosto entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão.

O chamado Acordo Conjunto de Defesa de Meca estabelece que um ataque armado contra qualquer um dos três países será considerado um ataque contra todos. A iniciativa cria uma nova camada de dissuasão militar no Oriente Médio e amplia as opções estratégicas de Riad. 

O acordo ganhou ainda mais importância com a continuidade do conflito regional.

Em 30 de agosto, representantes dos três países realizaram a primeira reunião relacionada ao pacto, discutindo defesa coletiva, interoperabilidade das forças e cooperação na indústria militar. 

No dia seguinte, os governos concordaram em criar um secretariado permanente na Arábia Saudita, inicialmente comandado por um secretário-geral paquistanês durante três anos. 

A estrutura demonstra que o acordo não ficou apenas no campo político: os três países começaram a criar mecanismos institucionais para ampliar a cooperação militar.

Mas Riad não está abandonando os Estados Unidos

Ao mesmo tempo em que a Arábia Saudita amplia suas opções estratégicas, a relação militar com Washington continua extremamente importante.

A confirmação mais recente veio nesta sexta-feira, 4 de setembro.

O Departamento de Estado americano aprovou uma possível venda à Arábia Saudita de munições JDAM-ER estimadas em US$ 5 bilhões, com a Boeing como principal contratada. Também foi aprovada uma possível venda de motores AGT-1500 estimada em US$ 750 milhões, com a Honeywell como principal contratada. 

Os números deixam evidente a contradição do atual momento: Riad procura reduzir sua dependência estratégica dos Estados Unidos enquanto continua comprando equipamentos militares americanos de enorme valor.

Portanto, falar em rompimento entre Arábia Saudita e Washington seria exagerado.

O que está ocorrendo é uma tentativa de reduzir a vulnerabilidade provocada pela dependência de um único parceiro.

O novo modelo: diversificação sem substituição

A estratégia dos países do Golfo parece estar cada vez mais clara.

Em vez de trocar os Estados Unidos por uma nova potência, os governos regionais estão tentando construir uma rede mais ampla de parceiros.

Nesse modelo, os EUA continuam sendo fundamentais, mas dividem espaço com:

  • Turquia;
  • Paquistão;
  • países europeus;
  • China;
  • Reino Unido;
  • e acordos de cooperação entre os próprios países árabes.

A aproximação entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão é particularmente significativa porque combina recursos financeiros sauditas, capacidade militar e industrial turca e a experiência militar e capacidade nuclear paquistanesa.

O objetivo não parece ser criar imediatamente uma alternativa completa ao sistema americano, mas aumentar a capacidade de resposta caso Washington não possa ou não queira intervir em uma futura crise.

Estreito de Ormuz aumenta pressão sobre os governos árabes

A situação no Estreito de Ormuz reforça esse processo.

Dados da Kpler divulgados nesta sexta-feira mostram que apenas quatro embarcações de commodities atravessaram o estreito na quinta-feira, contra uma média de aproximadamente 15 nos dez dias anteriores.

Antes do início da guerra, cerca de 125 grandes embarcações comerciais atravessavam o Estreito de Ormuz diariamente. A redução drástica do tráfego aumentou as preocupações com petróleo, gás natural liquefeito, transporte marítimo e inflação mundial. 

O problema atinge diretamente as economias do Golfo.

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Bahrein dependem de estabilidade regional para exportar energia, atrair investimentos, manter o turismo e executar grandes projetos de infraestrutura.

Quanto mais prolongado for o conflito, maior será a pressão para que esses países tenham capacidade própria de proteção de suas instalações estratégicas.

China aproveita o espaço diplomático

A transformação também abre espaço para Pequim.

A China vem ampliando sua presença econômica e diplomática no Oriente Médio e tenta apresentar-se como uma potência capaz de defender maior autonomia regional.

Durante sua visita ao Egito nesta semana, o presidente chinês Xi Jinping criticou ações americanas no Oriente Médio e defendeu maior autonomia dos países da região. A aproximação chinesa ocorre justamente quando aumentam as dúvidas sobre a capacidade das atuais estruturas de segurança. 

Apesar disso, os países árabes continuam evitando uma escolha definitiva entre Washington e Pequim.

A tendência é manter relações simultâneas com as duas potências.

O impacto para os Estados Unidos

Para Washington, a situação representa um desafio estratégico.

Os EUA ainda possuem uma presença militar extremamente relevante no Golfo e continuam sendo um dos principais fornecedores de equipamentos e tecnologias de defesa para a região.

Mas a confiança política é tão importante quanto a capacidade militar.

Se os governos árabes concluírem que precisam construir alternativas para inteligência, defesa aérea, drones, mísseis, radares e alianças militares, a influência americana poderá diminuir gradualmente sem que nenhuma aliança seja formalmente encerrada.

É justamente esse o risco para Washington: não uma ruptura repentina, mas uma redução progressiva da dependência americana.

Consequências para o equilíbrio de poder

A mudança pode produzir uma nova arquitetura de segurança no Oriente Médio.

Durante décadas, a influência militar americana foi o principal eixo externo de proteção do Golfo. Agora, o sistema começa a adquirir múltiplos centros.

Isso pode aumentar a autonomia dos países árabes, mas também tornar o ambiente estratégico mais complexo.

Uma maior presença da Turquia, do Paquistão e da China poderá criar novas linhas de cooperação, mas também aumentar a competição entre grandes potências e tornar qualquer futura crise mais difícil de administrar.

O que muda a partir de agora

Os acontecimentos das últimas semanas mostram que os países do Golfo estão fazendo uma escolha pragmática.

Eles não querem romper com os Estados Unidos, porque continuam dependendo da tecnologia, inteligência, treinamento e capacidade militar americana.

Ao mesmo tempo, também não querem permanecer totalmente dependentes de Washington.

O acordo entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, a criação de uma estrutura permanente para o pacto e a continuidade das compras de armas americanas mostram exatamente essa estratégia.

O Golfo não está trocando os Estados Unidos por outro protetor. Está tentando garantir que tenha outras opções caso a proteção americana deixe de ser suficiente.

A guerra com o Irã, portanto, pode estar produzindo uma transformação que vai muito além do conflito atual: a formação gradual de uma arquitetura de segurança mais diversificada e menos dependente de uma única potência.


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