Colapso de geleira provocou uma das maiores catástrofes recentes do Himalaia; equipes ainda procuram vítimas e trabalhadores que podem estar presos em túneis
Nepal — 5 de setembro de 2026
Dez dias depois das enchentes devastadoras que atingiram o norte do Nepal, a dimensão da tragédia continua aumentando. O desastre provocado por uma avalanche de gelo, rochas e lama já deixou 1.344 mortos no Nepal, enquanto 4.887 pessoas continuam desaparecidas, segundo o balanço mais recente das autoridades nepalesas. Entre os desaparecidos estão 583 estrangeiros.
No lado chinês da fronteira, no Tibete, as autoridades informaram 31 mortos e 531 desaparecidos. Os números continuam sendo atualizados conforme as equipes conseguem acessar áreas destruídas pela correnteza e identificar vítimas.
Apesar da dimensão da catástrofe, as operações de resgate produziram novos sinais de esperança nesta sexta-feira e neste sábado: três trabalhadores foram retirados vivos de túneis de projetos hidrelétricos, enquanto uma mulher também foi encontrada com vida sob os escombros de uma residência.
Homem chinês é resgatado após dez dias
A operação mais recente ocorreu neste sábado (5).
Um cidadão chinês identificado como Lu Haitao foi encontrado vivo dentro de um túnel de aproximadamente 225 metros no projeto hidrelétrico Upper Trishuli-1.
Ele permaneceu isolado por cerca de dez dias após a passagem da enchente e foi retirado por uma equipe formada por militares nepaleses e especialistas sul-coreanos.
Segundo o Exército do Nepal, Lu estava com sinais de hipotermia, mas apresentava sinais vitais estáveis. Depois do resgate, foi levado de helicóptero para um hospital militar em Katmandu.
O resgate aconteceu um dia depois de dois trabalhadores nepaleses, Kabir Maharjan e Sanjay Sah, terem sido retirados vivos de outro túnel do complexo Upper Trishuli 3A.
Os dois haviam permanecido presos durante nove dias.
Vozes ainda podem estar dentro dos túneis
O resgate dos trabalhadores aumentou a esperança das equipes de emergência.
Sobreviventes retirados anteriormente relataram ter ouvido pessoas dentro dos túneis. Familiares também receberam informações de trabalhadores que conseguiram escapar de que ainda poderiam existir sobreviventes em áreas mais profundas.
As autoridades estimam que aproximadamente 900 trabalhadores estejam desaparecidos em diferentes projetos hidrelétricos, e cerca de 500 podem estar presos dentro de túneis.
No projeto Trishuli 3A, aproximadamente 115 trabalhadores ainda são considerados desaparecidos.
As equipes utilizam perfuração, máquinas pesadas, equipamentos de comunicação, câmeras e sistemas de ventilação para tentar alcançar áreas bloqueadas.
Mulher também é encontrada viva
As operações não estão concentradas apenas nos projetos hidrelétricos.
Neste sábado, militares nepaleses também encontraram Chandika Kumari Shrestha, uma mulher que estava presa sob os escombros de sua residência na região de Betrawati.
Ela foi retirada viva e transportada de helicóptero para Katmandu para receber atendimento médico.
O caso demonstra que ainda existem possibilidades de encontrar sobreviventes mesmo dez dias depois da passagem da inundação.
Como a tragédia começou
A catástrofe teve início em 26 de agosto, quando uma enorme massa de gelo e rochas se desprendeu na região do Himalaia.
O material atingiu o sistema fluvial e provocou uma rápida elevação do volume de água no rio Bhote Koshi. A onda avançou por vales estreitos, carregando lama, pedras, veículos e estruturas inteiras.
A Organização Mundial da Saúde descreve preliminarmente o evento como uma inundação provocada por uma súbita entrada de água no Bhote Koshi, possivelmente associada a uma avalanche de gelo a montante e ao represamento temporário do rio Lhende. A investigação sobre o mecanismo exato continua.
Infraestrutura foi destruída
A força da inundação devastou comunidades inteiras no distrito de Rasuwa e em outras áreas ao longo do sistema do Trishuli.
Estradas, pontes, casas, escolas, instalações comerciais e projetos de geração de energia foram destruídos ou severamente danificados.
O impacto econômico também é enorme. A Reuters estima os danos à propriedade e à infraestrutura do Nepal em aproximadamente US$ 2,56 bilhões, com perdas particularmente importantes no setor hidrelétrico.
Além das perdas materiais, a interrupção das rotas de transporte dificulta a chegada de equipes, equipamentos, alimentos e medicamentos às regiões mais afetadas.
Cerca de 84 mil pessoas precisam de assistência
A crise também se transformou em uma emergência humanitária.
As Nações Unidas lançaram um apelo de aproximadamente US$ 49,6 milhões para ajudar mais de 84 mil pessoas afetadas pelo desastre.
A prioridade é garantir água, alimentos, abrigo, assistência médica e outros serviços essenciais enquanto as comunidades começam a reconstruir suas vidas.
Estrangeiros continuam entre os desaparecidos
O desastre atingiu uma região frequentada por turistas, peregrinos e praticantes de trekking.
O Nepal informou que 583 estrangeiros continuam desaparecidos.
A Austrália, por exemplo, enviou uma equipe especializada em drones para ajudar nas buscas depois que 36 cidadãos australianos foram inicialmente dados como desaparecidos. Especialistas também devem auxiliar na identificação de vítimas.
Alguns estrangeiros anteriormente considerados desaparecidos já conseguiram entrar em contato com suas famílias ou autoridades, mostrando que os números ainda podem sofrer alterações.
China mantém controle das informações no Tibete
A situação do outro lado da fronteira permanece mais difícil de acompanhar.
A China informou 31 mortos e 531 desaparecidos no Tibete, mas o acesso independente à região afetada é limitado.
A Associated Press informou que as autoridades chinesas restringiram o acesso de jornalistas e atualizaram os números de vítimas com menos frequência do que as autoridades nepalesas.
Essa diferença de transparência dificulta a obtenção de um balanço completo da tragédia nos dois lados da fronteira.
A busca continua
Mesmo dez dias depois da catástrofe, as equipes ainda não encerraram as operações.
Os novos resgates de sobreviventes demonstram que ainda existem possibilidades de encontrar pessoas presas em locais protegidos da força principal da inundação.
Ao mesmo tempo, as equipes precisam recuperar corpos, identificar vítimas e localizar milhares de desaparecidos.
As buscas estão concentradas especialmente em projetos hidrelétricos, túneis, áreas residenciais destruídas e regiões onde a lama e os detritos se acumularam.
O que acontece agora
O Nepal entrou em uma nova fase da crise: além da busca por sobreviventes, o país precisa reconstruir estradas, pontes, sistemas de energia e comunidades inteiras.
O desastre também reacendeu o alerta internacional sobre a vulnerabilidade das regiões montanhosas do Himalaia diante de avalanches, deslizamentos e possíveis alterações na estabilidade das geleiras.
Por enquanto, entretanto, a prioridade permanece clara: encontrar quem ainda está desaparecido.
Com 1.344 mortos no Nepal, 31 no Tibete e milhares de pessoas ainda sem localização, a dimensão definitiva da tragédia permanece desconhecida.
E os resgates realizados dez dias depois do desastre mostram que, apesar das condições extremas, a busca por sobreviventes ainda não terminou.
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