Reino Unido realiza cirurgia cerebral com inteligência artificial em tempo real pela primeira vez

TimeCras
Roberto Farias
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Foto Ilustrativa IA


Tecnologia desenvolvida por pesquisadores da UCL analisou imagens da operação enquanto ela acontecia e ajudou neurocirurgiões a identificar estruturas críticas próximas a um tumor na hipófise


Londres, Reino Unido — 27 de agosto de 2026

Uma equipe de neurocirurgiões do Reino Unido realizou um procedimento considerado um marco mundial no uso de inteligência artificial (IA) durante uma cirurgia cerebral. Pela primeira vez, um sistema de IA foi utilizado em tempo real durante uma operação em um paciente, analisando imagens produzidas pela câmera cirúrgica e auxiliando os médicos na identificação de estruturas delicadas na base do cérebro.

A cirurgia foi realizada no National Hospital for Neurology and Neurosurgery (NHNN), em Londres, unidade do University College London Hospitals (UCLH), como parte de um ensaio clínico. A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores da University College London (UCL)

O primeiro paciente foi Rhys Hibbert, de 48 anos, morador de Bedfordshire. Ele apresentava um tumor na hipófise que ameaçava sua visão e poderia evoluir para cegueira caso não fosse tratado.

A operação conseguiu retirar o tumor e preservar sua visão.

IA analisou a cirurgia enquanto ela acontecia

O diferencial do procedimento está na forma como a inteligência artificial foi empregada.

Durante a operação, o sistema analisou em tempo real o vídeo captado pela câmera cirúrgica. Isso é diferente de utilizar a IA apenas para examinar tomografias, ressonâncias magnéticas ou outros exames realizados antes da cirurgia.

A tecnologia foi desenvolvida para reconhecer estruturas anatômicas importantes e destacar áreas críticas na região em que os médicos trabalhavam. Entre elas estão nervos responsáveis pela visão e vasos sanguíneos localizados próximos à hipófise. 

A região exige extrema precisão. A hipófise tem aproximadamente o tamanho de uma bola de gude e fica muito próxima de estruturas essenciais. Segundo a equipe responsável pelo projeto, uma diferença de apenas um milímetro durante a intervenção pode representar uma consequência grave, incluindo lesão vascular, acidente vascular cerebral, cegueira ou morte. 

O cirurgião continuou responsável pelas decisões

Apesar do avanço tecnológico, a inteligência artificial não realizou a cirurgia de forma autônoma.

O neurocirurgião permaneceu no comando do procedimento e utilizou as informações fornecidas pelo sistema como apoio adicional para identificar áreas de risco e retirar o máximo possível do tumor com segurança.

A cirurgia foi realizada pelo neurocirurgião Hani Marcus, professor de neurocirurgia do UCL Queen Square Institute of Neurology e consultor do NHNN, ao lado de Danyal Khan, residente em neurocirurgia e pesquisador envolvido no desenvolvimento da tecnologia. 

Esse ponto é fundamental para compreender o avanço: o sistema não substituiu a experiência médica. Ele acrescentou uma camada de análise visual durante uma operação em que a identificação precisa da anatomia pode ser decisiva.

Tecnologia foi treinada com centenas de vídeos cirúrgicos

O sistema foi desenvolvido pelo UCL Hawkes Institute, grupo multidisciplinar dedicado ao desenvolvimento de tecnologias para a área da saúde.

Para ensinar a IA a reconhecer a anatomia e os elementos presentes nesse tipo de procedimento, os pesquisadores utilizaram uma grande coleção de vídeos de cirurgias endoscópicas da hipófise, com estruturas previamente identificadas.

Segundo a equipe, o sistema aprendeu a reconhecer anatomia crítica, instrumentos cirúrgicos e interações entre instrumentos e tecidos. A tecnologia também já havia sido avaliada como ferramenta de treinamento para cirurgiões antes de chegar ao ambiente de uma cirurgia real. 

O sistema funciona sobre uma plataforma NVIDIA Clara IGX, projetada para aplicações que exigem processamento de inteligência artificial em tempo real em ambientes médicos. 

Tumor foi descoberto após desmaio

A história de Rhys Hibbert começou em dezembro de 2024. Durante uma caminhada, ele passou mal, perdeu a consciência e sofreu uma convulsão.

Exames realizados posteriormente revelaram um tumor de aproximadamente 11 milímetros na hipófise.

Inicialmente, os médicos optaram pelo acompanhamento sem cirurgia. Com o tempo, porém, o paciente apresentou alterações hormonais e problemas de visão.

A perda da visão periférica chegou a afetar sua mobilidade. Ele relatou que passou a usar bengalas depois de tropeçar repetidamente porque não conseguia enxergar adequadamente parte do campo visual. 

Quando decidiu realizar a cirurgia, Hibbert também aceitou participar da pesquisa. Poucos dias antes do procedimento, recebeu o convite para integrar a primeira cirurgia com utilização da IA em tempo real e concordou em participar.

Visão melhorou após a operação

Segundo o UCLH, a cirurgia conseguiu retirar o tumor e preservar a visão do paciente.

Hibbert afirmou que percebeu uma melhora significativa assim que acordou da anestesia. Dentro de uma semana, já conseguia caminhar de forma independente, sem os óculos ou as bengalas que vinha utilizando.

Agora em recuperação em casa, ele pretende retomar gradualmente suas atividades e aumentar a duração de suas caminhadas. 

O resultado é particularmente relevante porque o objetivo da cirurgia não era apenas remover o tumor, mas fazê-lo sem causar danos às estruturas responsáveis pela visão.

O que muda com a IA dentro do centro cirúrgico

A experiência britânica mostra uma mudança importante na aplicação da inteligência artificial à medicina.

Até recentemente, muitas aplicações de IA na saúde estavam concentradas em tarefas como análise de exames, auxílio ao diagnóstico, planejamento de tratamentos e treinamento médico.

Neste caso, a tecnologia passou a acompanhar o ambiente cirúrgico em tempo real.

Isso abre a possibilidade de sistemas capazes de fornecer informações adicionais ao médico durante procedimentos nos quais a anatomia pode ser difícil de distinguir e qualquer movimento impreciso pode provocar consequências graves.

Os pesquisadores pretendem ampliar o desenvolvimento da tecnologia para que ela também possa acompanhar instrumentos cirúrgicos e a interação entre os instrumentos e os tecidos durante procedimentos complexos.

Segurança continua sendo o principal desafio

O avanço, entretanto, ainda está em fase de pesquisa.

O fato de uma primeira cirurgia ter apresentado resultado positivo não significa que sistemas de inteligência artificial estejam prontos para substituir neurocirurgiões ou tomar decisões médicas de maneira independente.

A própria equipe responsável pelo projeto destaca que a IA foi criada para apoiar o cirurgião, e não para assumir o controle da operação.

A segurança também será fundamental para determinar até onde essa tecnologia poderá avançar. Sistemas utilizados em ambientes médicos precisam ser avaliados em diferentes pacientes e situações antes de uma adoção mais ampla.

O ensaio clínico que possibilitou o procedimento recebeu financiamento do National Institute for Health and Care Research (NIHR) e do Google, com apoio do NIHR Biomedical Research Centre do UCLH, Royal College of Surgeons, Engineering and Physical Sciences Research Council e Wellcome. 

Um marco para a medicina assistida por inteligência artificial

A cirurgia realizada em Londres não significa que os médicos tenham sido substituídos por máquinas. O avanço está justamente na combinação entre experiência humana e capacidade computacional.

Enquanto o neurocirurgião continua responsável pela operação e pelas decisões clínicas, a IA consegue analisar continuamente as imagens do procedimento e destacar informações relevantes que podem ajudar na identificação de estruturas críticas.

O caso de Rhys Hibbert representa, portanto, um primeiro passo para uma nova geração de ferramentas médicas: sistemas capazes de acompanhar uma cirurgia enquanto ela acontece e fornecer ao profissional informações adicionais em momentos de alta complexidade.

Se essa tecnologia demonstrar segurança e eficácia em estudos posteriores, poderá contribuir para tornar determinados procedimentos mais precisos e reduzir riscos.

Por enquanto, porém, o resultado deve ser encarado como um importante avanço experimental, e não como o início de uma era de cirurgias realizadas autonomamente por inteligência artificial.

Serviço

Local: Londres, Reino Unido
Data da divulgação: 27 de agosto de 2026
Procedimento: cirurgia de tumor da hipófise com assistência de IA em tempo real
Paciente: Rhys Hibbert, 48 anos
Hospital: National Hospital for Neurology and Neurosurgery (NHNN), UCLH
Tecnologia: inteligência artificial para análise de imagens cirúrgicas em tempo real
Equipe: Hani Marcus e Danyal Khan
Desenvolvimento: University College London (UCL)
Financiamento do ensaio: NIHR e Google


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