Operação Disclosure avança: PF e MPF bloqueiam R$ 54 bilhões de acionistas e bancos ligados às Americanas

TimeCras
Roberto Farias
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A Justiça Federal do Rio de Janeiro determinou o sequestro cautelar de bens e valores de até R$ 54 bilhões de acionistas de referência, ex-executivos e outros envolvidos nas investigações sobre as fraudes contábeis das Lojas Americanas. A medida foi tomada nesta quinta-feira, 25 de junho de 2026, durante a deflagração da segunda fase da Operação Disclosure, conduzida pela Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal. 

Agentes cumpriram nove mandados de busca e apreensão, incluindo buscas pessoais, nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A ação marca um aprofundamento significativo nas apurações, que agora buscam esclarecer o possível envolvimento direto de controladores e de representantes de grandes bancos privados no esquema que ocultou dívidas e inflou artificialmente os resultados da varejista por anos.

O caso Americanas explodiu em janeiro de 2023, quando a companhia revelou “inconsistências contábeis” inicialmente estimadas em R$ 20 bilhões. Laudos posteriores apontaram para um rombo de cerca de R$ 25,3 bilhões até o fim de 2022, resultado principalmente de receitas fictícias e ocultação de passivos. A empresa, controlada indiretamente por investidores de renome internacional via 3G Capital, entrou em recuperação judicial — a maior da história do Brasil —, com dívidas totais que superaram os R$ 50 bilhões perante milhares de credores.

A primeira fase da Operação Disclosure, deflagrada em junho de 2024, concentrou-se em ex-diretores e executivos da alta cúpula. A segunda fase, aberta hoje, expande o foco para acionistas de referência e o papel de instituições financeiras que teriam facilitado ou omitido as operações irregulares.

Segundo a Polícia Federal, os laudos periciais mais recentes elevam o montante total das fraudes investigadas para aproximadamente R$ 54 bilhões. O esquema envolvia principalmente duas modalidades:

  • Operações de risco sacado (forfait ou confirming): Antecipações de pagamentos a fornecedores por meio de bancos, registradas de forma inadequada como redução de dívida ou receita, distorcendo o real endividamento da companhia.
  • Verbas de Propaganda Cooperada (VPC): Contratos de incentivos comerciais registrados sem contraprestação efetiva, gerando receitas fictícias que melhoravam artificialmente os balanços trimestrais e anuais.

Essas práticas teriam sido mantidas ao longo de vários exercícios, permitindo o pagamento de bônus milionários a executivos, a valorização das ações no mercado e a captação de mais crédito junto aos bancos. A PF investiga os crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. Os nomes exatos dos alvos não foram divulgados oficialmente, mas reportagens indicam que buscas envolveram figuras ligadas aos principais acionistas, como Beto Sicupira e familiares de Jorge Paulo Lemann.

Impactos

Quem perde:

  • Milhares de acionistas minoritários e investidores institucionais que viram as ações da Americanas despencarem mais de 99% desde a revelação do caso.
  • Credores (bancos, fornecedores, fundos) que ainda aguardam recuperação de parte significativa dos créditos na RJ.
  • O varejo brasileiro como um todo, que sofre com maior escrutínio regulatório e desconfiança do mercado.

Quem pode ganhar:

  • O processo de recuperação judicial pode ser fortalecido pelo bloqueio de bens, aumentando as chances de ressarcimento aos credores.
  • O mercado de capitais brasileiro, caso a investigação resulte em maior transparência e governança.

Setores diretamente afetados incluem o varejo físico e digital, instituições financeiras e o ecossistema de investimentos no Brasil. Economicamente, o caso já contribuiu para elevar o custo de capital de empresas brasileiras com estruturas acionárias semelhantes e reforçou debates sobre responsabilidade de controladores.

A ampliação da investigação para acionistas e bancos representa um teste importante para a efetividade da regulação brasileira. Até agora, os controladores via 3G Capital mantinham a narrativa de que foram vítimas de fraudes executadas por diretores. A segunda fase da Disclosure desafia essa versão ao buscar evidências de ciência ou participação.

Futuramente, o caso pode resultar em:

  • Acordos de leniência ou delações que acelerem a responsabilização.
  • Precedentes judiciais sobre responsabilidade civil e penal de sócios controladores em companhias abertas.
  • Reforço na atuação da CVM e do Judiciário contra fraudes contábeis, ainda raras em escala bilionária no Brasil, mas com potencial de erosão de confiança em um mercado que busca atrair capital internacional.

O sequestro de R$ 54 bilhões é cautelar e não significa condenação. Os investigados terão direito de defesa plena, podendo contestar tanto o bloqueio quanto as acusações.

Três anos e meio após a maior crise contábil da história recente do varejo brasileiro, a Operação Disclosure entra em uma fase decisiva. O desfecho não definirá apenas o futuro da Americanas — ainda em recuperação judicial —, mas também o padrão de accountability que o Brasil imporá a seus maiores conglomerados. Para o mercado, a mensagem é clara: transparência não é mais uma opção, e a impunidade, mesmo para os nomes mais influentes, torna-se cada vez menos provável. O acompanhamento das próximas etapas judiciais será fundamental para entender o real alcance dessa que já é considerada uma das maiores investigações do mercado de capitais nacional.


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