Confrontos em La Paz expõem crise econômica e polarização seis meses após eleição de Rodrigo Paz

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Roberto Farias
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La Paz, 19 de maio de 2026 – A tensão na Bolívia atingiu um novo patamar na segunda-feira (18), quando policiais de choque enfrentaram manifestantes com gás lacrimogêneo em pleno centro de La Paz. Milhares de mineiros, camponeses, professores e sindicalistas ligados à Central Operária Boliviana (COB) e a setores do MAS marcharam exigindo a renúncia do presidente Rodrigo Paz, em meio à pior crise econômica em quatro décadas.
Confrontos em La Paz

Os confrontos ocorreram após uma marcha de sete dias que partiu de Caracollo, em Oruro. Apoiadores do ex-presidente Evo Morales chegaram à capital portando dinamites, estilingues e pedras. Explosões foram ouvidas no centro da cidade, enquanto a polícia usava bombas de gás para conter tentativas de avançar em direção ao Palácio de Governo e ao Congresso. Não há registro de mortos no confronto de segunda, mas a violência já deixou feridos e prisões em dias anteriores.

Raízes de uma crise anunciada

Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão (centro-direita), assumiu o cargo em novembro de 2025 após vencer as eleições com cerca de 54% dos votos, encerrando quase 20 anos de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS). Sua plataforma prometia abertura econômica, atração de investimentos privados e fim do modelo estatista anterior. No entanto, seis meses depois, o país enfrenta escassez grave de dólares, combustíveis e alimentos, inflação elevada e descontentamento generalizado.
Fonte: aljazeera.com

Bloqueios e protestos

Os protestos, que começaram com bloqueios de estradas por mineiros e camponeses insatisfeitos com cortes de subsídios e medidas de austeridade, ganharam força. Atualmente, dezenas de pontos permanecem bloqueados, paralisando o transporte e agravando a falta de suprimentos na capital. Analistas apontam que a herança de problemas econômicos do período anterior se somou às dificuldades de implementação das reformas de Paz, que ainda não conta com maioria sólida no parlamento.

Evo Morales e a oposição

Evo Morales, que governou de 2006 a 2019, emerge como figura central da oposição. Apesar de responder a ordens de prisão por outros casos, ele apoia publicamente as mobilizações e nega orquestrar um golpe. Para o governo, os atos configuram tentativa de desestabilização, com acusações de envolvimento de setores ligados ao narcotráfico e interesses políticos para o retorno do ex-líder. Morales rebate dizendo que a revolta é do povo contra políticas que prejudicam os mais pobres.

Impactos e respostas

O cerco a La Paz já dura mais de duas semanas. Relatos indicam prejuízos diários milionários, caminhões parados e dificuldade de acesso a remédios e combustíveis. O governo enviou tropas para desbloquear rodovias, resultando em dezenas de detenções. Paz anulou uma polêmica lei rural e acena para diálogo, mas mantém tom firme contra o que classifica como ameaça à democracia.

Resistência e instabilidade

Do outro lado, líderes sindicais e indígenas falam em resistência legítima. “O povo boliviano não aguenta mais promessas enquanto falta comida na mesa”, disse um dirigente da COB em meio à marcha.

Um país de ciclos instáveis

A Bolívia tem histórico de presidentes derrubados por pressões de rua. O caso de 2019, com a saída de Morales, ainda divide o país. Agora, com polarização entre o novo governo de centro-direita e os setores tradicionais do MAS, o risco de escalada preocupa observadores internacionais. Enquanto a fumaça do gás lacrimogêneo se dissipava no fim da tarde de segunda, a calma era provisória. Novas mobilizações são anunciadas, e o governo segue monitorando a situação. A crise boliviana não é apenas econômica: é um teste precoce à estabilidade de um mandato que começou com esperança de mudança e agora enfrenta o velho fantasma da instabilidade andina.



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