O escândalo financeiro
Em meio ao maior escândalo financeiro envolvendo bancos regionais nos últimos anos, o Banco de Brasília (BRB) se viu obrigado a assumir, de forma provisória, o controle da Cemitérios São Paulo SA — mais conhecida como Grupo Maya —, uma das principais operadoras de serviços funerários e cemitérios na maior cidade do país.
A operação não foi uma aquisição estratégica ou expansão de negócios: trata-se de uma herança indesejada da compra de carteiras de crédito do falido Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. O BRB adquiriu cerca de R$ 12 bilhões em ativos do Master entre 2024 e 2025, apostando em uma carteira que prometia rentabilidade. No entanto, investigações da Polícia Federal (Operação Compliance Zero) revelaram que boa parte desses créditos era fraudulenta, sem garantias reais ou inflada artificialmente — um rombo que levou à liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central em novembro de 2025.
Cemitérios sob gestão inesperada
Como parte da compensação pelas perdas, o BRB recebeu um pacote heterogêneo de ativos em garantia: imóveis de luxo, fundos de investimento, ações, contas offshore e, surpreendentemente, a totalidade das ações da Cemitérios São Paulo SA.
O Grupo Maya administra cinco cemitérios municipais concessionados em São Paulo:
- Campo Grande (zona sul, com mais de 70 anos de história)
- Lageado (um dos mais antigos da zona leste)
- Lapa (zona oeste)
- Parelheiros (extremo sul)
- Saudade (zona leste)
A empresa oferece o pacote completo de serviços funerários: velórios, sepultamentos, cremações, traslados nacionais e internacionais, planos de assistência funeral pré-pago e até venda de flores e adornos. É um mercado sensível, regulado pela prefeitura de São Paulo e essencial para milhares de famílias todos os anos.
Controvérsias do Grupo Maya
O Grupo Maya já carregava controvérsias antes de entrar no radar do BRB. A concessionária lidera rankings de reclamações nos canais oficiais da prefeitura e está sob investigação por suposta “fusão informal” com a Cortel, outra operadora que controla cinco cemitérios. As duas empresas dividem endereços, funcionários e operações de forma que sugere coordenação não autorizada — o que pode configurar descumprimento das regras de concessão pública.
Durante as apurações, veio à tona que o Maya havia contraído diversos empréstimos justamente junto ao Banco Master, aprofundando as conexões no imbróglio.
Estratégia do BRB
O BRB deixou claro: não pretende se tornar gestor de cemitérios. O presidente Nelson Antônio de Souza desembarcou em São Paulo no início de fevereiro de 2026 para negociar pessoalmente na Faria Lima a venda de um pacote avaliado em R$ 21,9 bilhões em ativos herdados do Master — incluindo o Grupo Maya, terrenos nobres (como um na Marginal Pinheiros, próximo ao Cidade Jardim) e outras carteiras.
O objetivo é urgente: recompor caixa, conter fuga de depósitos (que já gerou saques expressivos) e cumprir o plano de capital entregue ao Banco Central, com medidas preventivas para os próximos 180 dias.
Repercussão política
Críticas políticas não demoraram. Deputados distritais do DF, como Fábio Felix (PSOL), classificaram o episódio como evidência de um “buraco sem fundo” no BRB, apontando que o banco acabou com “quinquilharias” distantes de sua missão original — de financiar o desenvolvimento do Distrito Federal a gerir cemitérios e restaurantes em outros estados.
O caso expõe falhas graves na due diligence: o ex-presidente do BRB admitiu em depoimentos que analisou apenas uma amostra mínima de contratos em meio a milhões de CPFs envolvidos. Enquanto isso, o setor funerário paulistano — que atende famílias em momentos de luto — permanece com a gestão em transição incerta.
Conclusão
O BRB reitera solidez institucional e compromisso com a recuperação de prejuízos via medidas judiciais e extrajudiciais. Mas o episódio do “banco dono de cemitério” já entrou para a lista de capítulos mais surreais da crise financeira brasileira recente.
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