Arma equipada com propulsão scramjet entra na fase de ensaios de voo após anos de desenvolvimento e atrasos; Washington pretende avançar para uma possível aquisição a partir de 2027
Os Estados Unidos confirmaram que o Hypersonic Attack Cruise Missile (HACM) entrou oficialmente na fase de testes de voo. A Força Aérea dos EUA informou que, em parceria com a Austrália, foi realizado um teste no qual a Força Aérea Real Australiana (RAAF) efetuou a liberação de uma unidade de teste do míssil sobre uma área de testes australiana.
A confirmação foi dada por um porta-voz da Força Aérea americana ao The War Zone, que divulgou a informação em 5 de outubro. No dia seguinte, a Air & Space Forces Magazine também confirmou o teste.
O episódio representa um avanço importante para um dos principais programas americanos de armas hipersônicas lançadas do ar. Apesar disso, ainda não há informações públicas suficientes para afirmar que o protótipo completou todo o voo utilizando sua própria propulsão.
Teste aconteceu na Austrália, mas local exato não foi divulgado
A Força Aérea dos EUA confirmou que a RAAF realizou a liberação do veículo sobre uma “área de testes australiana designada”, mas não informou publicamente o nome do local nem a data exata da operação. Também não revelou qual aeronave transportou o protótipo.
O Woomera Test Range, no sul da Austrália, é apontado como o local mais provável por publicações especializadas. A região possui uma extensa estrutura destinada a testes de mísseis, aeronaves e sistemas de alta velocidade e já recebeu outros experimentos hipersônicos envolvendo Estados Unidos e Austrália.
Entretanto, Woomera não foi confirmado oficialmente como o local desse teste específico. Por isso, não é correto afirmar que o primeiro teste do HACM ocorreu comprovadamente em Woomera.
Essa distinção é importante porque os próprios militares americanos não divulgaram o ponto exato utilizado na operação.
O que o teste realmente demonstrou
Outro ponto ainda cercado de sigilo é o comportamento do míssil depois da liberação.
A Força Aérea americana confirmou a realização de um flight test e a liberação de uma unidade de teste, mas não informou se o HACM chegou a completar uma etapa de voo hipersônico utilizando seu motor scramjet.
Isso significa que não há, até as 10h05 de 7 de outubro, confirmação pública sobre:
- velocidade máxima atingida;
- duração do voo;
- alcance alcançado;
- altitude utilizada;
- funcionamento completo do scramjet;
- perfil de voo realizado;
- aeronave responsável pelo transporte do protótipo.
A ausência desses dados impede concluir que o teste já tenha demonstrado todas as capacidades previstas para a versão operacional do míssil.
Como funciona o HACM
O HACM foi concebido como um míssil de cruzeiro hipersônico lançado a partir de aeronaves.
Seu sistema utiliza uma arquitetura de dois estágios. Primeiro, um propulsor-foguete acelera o veículo até as condições necessárias para o funcionamento do segundo estágio. Depois, o componente equipado com scramjet assume a propulsão durante o voo em alta velocidade.
O scramjet utiliza o próprio ar atmosférico como parte do processo de combustão e foi projetado para operar em velocidades extremamente elevadas.
A classificação convencional considera como hipersônico um veículo que ultrapassa Mach 5. No caso do HACM, porém, a velocidade máxima do sistema ainda não foi oficialmente divulgada pelos Estados Unidos. Portanto, números superiores frequentemente associados ao projeto não devem ser tratados como especificações confirmadas.
Programa nasceu de uma parceria entre EUA e Austrália
O desenvolvimento está ligado ao Southern Cross Integrated Flight Research Experiment (SCIFiRE), programa de cooperação entre Estados Unidos e Austrália voltado ao desenvolvimento de tecnologias para armas hipersônicas lançadas do ar.
Segundo a própria Força Aérea americana, a parceria entre os dois países possui mais de 15 anos de histórico na área.
O HACM também aproveitou tecnologias desenvolvidas anteriormente no programa Hypersonic Air-breathing Weapon Concept (HAWC), conduzido pela DARPA.
Em 2022, a Raytheon, atualmente parte da RTX, foi escolhida para desenvolver o sistema em parceria com a Northrop Grumman, responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de propulsão scramjet.
A cooperação com a Austrália é considerada estratégica porque o país dispõe de grandes áreas destinadas a testes de sistemas de alta velocidade e participa diretamente das atividades de voo.
Super Hornet australiano pode participar dos testes
Documentos anteriores do governo americano já indicavam que aeronaves F/A-18F Super Hornet da Força Aérea Real Australiana seriam utilizadas em determinadas etapas dos testes do HACM.
O planejamento americano também prevê o uso do F-15E Strike Eagle como plataforma inicial para o lançamento operacional do sistema.
Ainda assim, a Força Aérea não informou qual aeronave foi utilizada no teste recém-confirmado.
A confirmação de que a própria RAAF realizou a liberação do veículo reforça a importância da participação australiana no programa, mas não permite concluir qual aeronave esteve envolvida nessa operação específica.
EUA enfrentam pressão para acelerar o programa
O teste ocorre depois de atrasos significativos no cronograma do HACM.
O programa tinha previsão de avançar para os testes de voo anteriormente, mas mudanças no cronograma fizeram com que essa etapa fosse postergada.
A situação levou a Força Aérea a reduzir a campanha de prototipagem rápida. O planejamento passou de sete para cinco testes de voo, aumentando a importância de cada ensaio para a decisão sobre o futuro do programa.
O Government Accountability Office (GAO), órgão de fiscalização do Congresso americano, já havia alertado para a pequena margem existente no cronograma.
Caso ocorram problemas significativos durante os ensaios, a Força Aérea poderá enfrentar dificuldades para completar a campanha dentro do prazo necessário para uma decisão de aquisição rápida.
Meta é avançar para aquisição em 2027
O objetivo americano é utilizar os resultados dos testes para decidir sobre uma possível aquisição acelerada do HACM a partir do ano fiscal de 2027.
Isso não significa que o míssil esteja pronto para combate.
Antes de uma eventual entrada em serviço, o sistema ainda precisa passar por uma série de avaliações destinadas a verificar sua propulsão, estabilidade, navegação, desempenho e capacidade de cumprir o perfil de missão previsto.
O teste realizado na Austrália representa, portanto, uma passagem importante do desenvolvimento para uma etapa em que o comportamento do sistema começa a ser avaliado em condições reais de voo.
Uma nova arma para ataques de longo alcance
O interesse americano no HACM está relacionado à busca por armas capazes de atingir alvos a grandes distâncias com pouco tempo de reação para o adversário.
Uma arma hipersônica de cruzeiro combina alta velocidade com a possibilidade de realizar um voo atmosférico potencialmente mais flexível do que um míssil balístico tradicional.
Essa característica pode criar desafios adicionais para sistemas de defesa aérea e antimísseis, especialmente quando combinada com capacidade de manobra.
Isso não significa, entretanto, que o HACM seja impossível de interceptar. A eficácia de uma arma desse tipo depende de diversos fatores, incluindo sua trajetória, assinatura, sensores, sistema de orientação, capacidade de manobra e desempenho real em condições operacionais.
Corrida pelas armas hipersônicas
O avanço do HACM ocorre em um momento de forte competição tecnológica entre grandes potências.
Estados Unidos, Rússia e China vêm desenvolvendo diferentes tipos de armas hipersônicas, enquanto países aliados de Washington também ampliam seus programas de pesquisa e testes.
Para os Estados Unidos, o desenvolvimento de armas hipersônicas faz parte de uma estratégia mais ampla para aumentar a capacidade de realizar ataques de longo alcance contra alvos de alto valor em ambientes nos quais as defesas inimigas estejam fortemente presentes.
A participação australiana também possui importância estratégica para Washington. Além de oferecer infraestrutura para testes, a parceria amplia a integração militar entre os dois países no Indo-Pacífico.
O que está confirmado até agora
Até 10h05 de 7 de outubro de 2026, os fatos confirmados são:
- A Força Aérea dos EUA realizou, em parceria com a Austrália, um teste de voo do HACM.
- A RAAF realizou a liberação de uma unidade de teste do míssil.
- O teste ocorreu sobre uma área de testes australiana designada.
- O programa está relacionado à iniciativa SCIFiRE.
- O HACM utiliza uma arquitetura com propulsão inicial por foguete e estágio equipado com scramjet.
- O programa pretende avançar para uma possível aquisição rápida em 2027.
Por outro lado, não foi oficialmente divulgado o local exato do teste, a data em que ele ocorreu, a aeronave utilizada, a velocidade alcançada ou se o protótipo realizou todo o voo sob propulsão própria.
Assim, a informação de que o teste ocorreu especificamente em Woomera deve continuar sendo apresentada como possibilidade ou local esperado, e não como confirmação oficial.
Um passo importante, mas ainda não o fim do desenvolvimento
O primeiro teste coloca o HACM em uma fase decisiva. Depois de anos de desenvolvimento, o programa deixou para trás parte dos ensaios preliminares e passou a avaliar o comportamento do sistema durante o voo.
Para Washington, o desafio agora será transformar esse primeiro resultado em uma sequência de testes bem-sucedidos capaz de sustentar a meta de colocar o armamento em produção e eventualmente em serviço.
O próximo passo será observar os resultados dos ensaios seguintes e, principalmente, se a Força Aérea americana divulgará dados capazes de confirmar o desempenho do scramjet e as características de voo do HACM.
Por enquanto, o que está comprovado é que o míssil hipersônico americano chegou efetivamente à fase de testes de voo em território australiano, abrindo uma nova etapa para um programa considerado estratégico pela defesa dos Estados Unidos.
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