Anvisa investiga 13 casos de problema ocular em usuários de canetas emagrecedora

TimeCras
Roberto Farias
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Notificações envolvem Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro; doença rara pode provocar perda permanente da visão, mas relação com os medicamentos ainda não foi comprovada


Brasília — 27 de setembro de 2026 — 10h16

A discussão sobre a segurança das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo capítulo no Brasil neste domingo (27). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está investigando 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA) em pessoas que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, usados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.

A doença é rara, afeta o nervo óptico e pode provocar perda súbita e permanente da visão.

Os registros envolvem medicamentos conhecidos como Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro. Segundo levantamento divulgado neste domingo, 12 notificações estão relacionadas à semaglutida e uma à tirzepatida. A distribuição inclui cinco notificações envolvendo Ozempic, três Wegovy, duas Wegovy FlexTouch, duas Rybelsus e uma Mounjaro. 

O dado, porém, precisa ser interpretado com cuidado. A Anvisa não afirma que os medicamentos tenham provocado os casos. A presença simultânea do medicamento e da doença em uma notificação é considerada uma suspeita e precisa ser investigada.

O que é a NOIA

A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica ocorre quando há redução do fluxo sanguíneo para uma parte do nervo óptico, estrutura responsável por transmitir ao cérebro as informações captadas pelo olho.

A consequência pode ser uma perda repentina da visão, normalmente em um dos olhos e, em geral, sem dor.

Em alguns pacientes, o comprometimento visual pode ser permanente.

A doença já ocorre naturalmente na população e possui fatores de risco conhecidos. Diabetes, hipertensão, alterações cardiovasculares e outras condições podem aumentar a possibilidade de problemas vasculares e oculares.

Essa realidade torna especialmente difícil determinar, em cada caso, qual foi o papel do medicamento.

13 casos estão sob investigação no Brasil

As 13 notificações relacionadas aos medicamentos GLP-1 fazem parte de um conjunto maior de registros no sistema de farmacovigilância da Anvisa.

Desde 2018, o painel da agência contabiliza 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica, incluindo notificações envolvendo outras classes de medicamentos. (

Entre os medicamentos GLP-1 citados nas 13 notificações:

  • Ozempic: 5 casos;
  • Wegovy: 3 casos;
  • Wegovy FlexTouch: 2 casos;
  • Rybelsus: 2 casos;
  • Mounjaro: 1 caso.

No conjunto, são 12 notificações envolvendo semaglutida e uma envolvendo tirzepatida.

A diferença entre esses princípios ativos é importante. Ozempic, Wegovy e Rybelsus utilizam semaglutida, enquanto Mounjaro utiliza tirzepatida.

Por isso, um alerta regulatório específico para semaglutida não deve automaticamente ser atribuído a todas as chamadas canetas emagrecedoras.

Há outros relatos de alterações na visão

Além das suspeitas de NOIA, os dados da farmacovigilância brasileira também registram 74 notificações de outras alterações visuais entre usuários desses medicamentos.

Entre os relatos aparecem visão turva, comprometimento visual, redução da acuidade visual, perda da visão central, perda súbita da visão e alterações no campo visual.

Esses números não significam necessariamente 74 pessoas diferentes, porque uma mesma notificação pode apresentar mais de um sintoma. (

O alerta para a semaglutida já existe

A preocupação não começou agora.

Em junho de 2025, a Anvisa determinou a inclusão da NOIA como reação adversa muito rara nas bulas dos medicamentos que contêm semaglutida, depois da avaliação realizada pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

Na ocasião, a Anvisa informou que seu sistema VigiMed já possuía 52 notificações de suspeitas de distúrbios oculares relacionados à semaglutida. Esse número é diferente dos atuais 13 casos de suspeita de NOIA envolvendo medicamentos GLP-1 e representa uma categoria mais ampla de eventos oculares. Portanto, não se trata de uma contradição, mas de conjuntos de notificações diferentes. 

A Anvisa mantém a orientação de que pessoas que utilizam semaglutida e apresentem perda repentina da visão, visão turva ou piora rápida da visão procurem atendimento médico imediatamente. Caso a NOIA seja confirmada, a agência orienta a interrupção do tratamento com semaglutida. 

O que dizem os estudos científicos

A relação entre os medicamentos e a NOIA ainda está sendo estudada.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu oito estudos de coorte retrospectivos, envolvendo mais de 14,2 milhões de participantes. Os pesquisadores encontraram associação entre o uso de semaglutida e maior risco de NOIA em determinados períodos de acompanhamento.

Na análise, o risco relativo agrupado foi de aproximadamente 3,36 vezes no primeiro ano e 2,37 vezes no segundo ano entre pacientes com diabetes tipo 2 que utilizavam semaglutida, em comparação com pessoas que utilizavam medicamentos não pertencentes à classe dos agonistas de GLP-1. 

Mas existe uma ressalva fundamental: os estudos analisados são principalmente observacionais. Eles conseguem identificar associações, mas não conseguem, sozinhos, provar que a semaglutida foi a causa direta da doença.

Além disso, os resultados não são uniformes entre todos os estudos.

Oftalmologistas alertam para as limitações das evidências

Em 22 de setembro, a American Academy of Ophthalmology (AAO) divulgou uma análise conjunta com a North American Neuro-Ophthalmology Society (NANOS).

As entidades avaliaram mais de 40 estudos. A análise encontrou um possível aumento de aproximadamente duas vezes no risco relativo de NOIA entre usuários de semaglutida em análises agrupadas.

Mas os especialistas também destacaram que os resultados são conflitantes e que ainda não existe evidência suficiente para afirmar definitivamente que os medicamentos provoquem a doença. 

Um dos conjuntos de dados analisados, envolvendo aproximadamente 1,2 milhão de pessoas do sistema de saúde militar dos Estados Unidos, não encontrou aumento do risco de NOIA entre usuários de semaglutida.

Essa diferença entre estudos é uma das razões pelas quais a questão continua sendo investigada.

Processos nos Estados Unidos

A discussão também chegou aos tribunais americanos.

Nas últimas semanas, dezenas de pacientes entraram com ações contra fabricantes de medicamentos GLP-1 alegando que desenvolveram NOIA e perda de visão após utilizar os produtos.

Os processos envolvem principalmente medicamentos fabricados pela Novo Nordisk, como Ozempic e Wegovy, e também produtos da Eli Lilly, incluindo Mounjaro e Zepbound. As alegações apresentadas nos processos ainda não equivalem a uma conclusão judicial de que os medicamentos tenham causado as doenças.

As empresas contestam as alegações.

A Novo Nordisk afirma que seus dados de estudos clínicos não demonstraram aumento da incidência de NOIA entre os participantes tratados com semaglutida e mantém sua avaliação de que o balanço entre benefícios e riscos permanece favorável.

A Eli Lilly afirma que acompanha continuamente os dados de segurança de seus medicamentos, inclusive possíveis eventos oftalmológicos. 

O que o usuário deve fazer?

O alerta não significa que todas as pessoas que utilizam essas medicações estejam em risco iminente de perder a visão.

A principal recomendação é não ignorar uma alteração visual súbita.

Quem utiliza semaglutida e perceber perda repentina da visão, visão embaçada ou uma piora rápida deve procurar atendimento médico imediatamente.

Também não é recomendável interromper o medicamento por conta própria apenas por causa das notícias. A decisão deve ser tomada com o médico responsável pelo tratamento.

Para pessoas com diabetes, o acompanhamento oftalmológico regular continua sendo especialmente importante.

Então as canetas emagrecedoras causam cegueira?

A resposta, neste momento, exige cuidado.

Não há base científica para afirmar que as canetas emagrecedoras, de forma geral, causam cegueira.

Existe, entretanto, um sinal de segurança relacionado principalmente à semaglutida, reconhecido por autoridades regulatórias, envolvendo uma doença rara do nervo óptico que pode causar perda permanente da visão.

No Brasil, a Anvisa agora investiga 13 notificações de suspeita de NOIA em usuários de medicamentos GLP-1, sendo 12 relacionadas à semaglutida e uma à tirzepatida. 

Ao mesmo tempo, os estudos científicos apresentam resultados divergentes e a relação de causa e efeito ainda não foi definitivamente estabelecida.

É justamente essa diferença entre uma suspeita de evento adverso, uma associação estatística e uma causalidade comprovada que precisa ser compreendida antes de transformar o alerta em uma afirmação de que os medicamentos provocam cegueira.

O que está confirmado até agora

Confirmado: a NOIA é uma doença rara que pode provocar perda permanente da visão.

Confirmado: a Anvisa reconhece a NOIA como reação adversa muito rara associada à semaglutida e incluiu o alerta nas bulas. 

Confirmado: a Anvisa investiga 13 notificações de suspeita de NOIA envolvendo usuários de medicamentos GLP-1 no Brasil. 

Confirmado: 12 dessas notificações estão relacionadas à semaglutida e uma à tirzepatida. 

Ainda não comprovado: que os medicamentos tenham sido responsáveis pelos 13 casos.

Ainda em investigação: qual é o tamanho exato do risco e quais pacientes podem apresentar maior suscetibilidade.


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