Checagens identificaram declarações falsas, exageradas e fora de contexto dos dois candidatos; economia, segurança pública e programas sociais dominaram o confronto antes do segundo turno.
Brasília, 24 de outubro de 2026
O último debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite de sexta-feira (23), pela TV Globo, terminou sem um vencedor incontestável e expôs divergências sobre economia, segurança pública, programas sociais e o legado dos governos anteriores. A troca de acusações dividiu espaço com propostas e discussões sobre indicadores econômicos e políticas públicas, em um confronto decisivo para os eleitores que ainda não definiram o voto.
O desempenho dos candidatos foi diferente em alguns aspectos. Lula concentrou parte de suas intervenções na defesa das realizações de seus governos, enquanto Flávio procurou apresentar propostas e responsabilizar a atual administração por problemas econômicos e sociais. A análise publicada pela revista Exame também destacou a postura mais organizada do presidente e a tentativa do senador de adotar um tom mais moderado em comparação com o debate anterior.
Não existe, porém, um critério objetivo que permita declarar um vencedor absoluto. A avaliação política depende da clareza das respostas, da consistência das propostas, da capacidade de enfrentar críticas e da percepção dos eleitores. A verificação factual das declarações oferece outro parâmetro, mas não deve ser confundida com uma classificação geral do desempenho dos candidatos.
Checagens apontam problemas nas declarações dos dois candidatos
Uma análise publicada pela Folha de S.Paulo, com base nas verificações da Agência Lupa, examinou 35 afirmações feitas durante o debate. Desse total, 20 foram classificadas como falsas, exageradas ou fora de contexto, enquanto 11 foram consideradas verdadeiras. As demais não devem ser automaticamente classificadas como falsas ou verdadeiras sem considerar os critérios específicos da apuração.
O UOL Confere e o Aos Fatos também verificaram declarações apresentadas pelos dois candidatos. As análises encontraram afirmações que exigiam correções, informações incompletas e números que precisavam de contexto para serem compreendidos corretamente.
O resultado reforça a importância de avaliar cada declaração individualmente. Uma afirmação pode conter um dado verdadeiro e, ainda assim, levar a uma conclusão enganosa quando omite o período considerado, mistura indicadores diferentes ou atribui exclusivamente a um governo uma política construída ao longo de várias administrações.
A quantidade de declarações questionadas também não deve ser usada isoladamente como placar para determinar qual candidato foi mais verdadeiro. As organizações de checagem selecionam afirmações específicas e aplicam critérios próprios de verificação.
Obras paralisadas: números de períodos diferentes
A infraestrutura foi um dos pontos de divergência. Flávio Bolsonaro afirmou que havia mais de 11,5 mil obras paralisadas. Segundo o UOL Confere, o painel do Tribunal de Contas da União (TCU) registrava 4.215 obras nessa condição em julho de 2026. O número citado pelo senador correspondia a um levantamento anterior, de 2025, e não ao dado mais recente utilizado na checagem.
Lula também fez uma afirmação sobre o tema ao dizer que havia herdado cerca de 6 mil obras paralisadas. A verificação do UOL apontou que o TCU registrava 8.603 obras nessa situação em abril de 2023, número superior ao mencionado pelo presidente.
Os dados evidenciam a necessidade de informar a data de referência e a metodologia utilizada em comparações sobre a infraestrutura pública. O total de obras paralisadas pode mudar conforme novos empreendimentos entram ou saem dessa condição, e a avaliação dos governos exige critérios equivalentes.
Além da quantidade de obras, o eleitor precisa considerar quais projetos foram retomados, concluídos ou permanecem interrompidos, bem como os custos e os prazos envolvidos. A simples apresentação de um número não explica, sozinha, a dimensão do problema nem a responsabilidade de cada administração.
Economia, juros e dívida pública
Na discussão econômica, Flávio afirmou que a taxa básica de juros estaria em aproximadamente 7% em 2026 caso Jair Bolsonaro tivesse permanecido na Presidência. O UOL Confere classificou a declaração como enganosa porque não havia uma projeção do Banco Central, divulgada em outubro de 2022, que sustentasse aquele resultado para 2026.
A Selic é influenciada por diferentes fatores, incluindo inflação, expectativas econômicas e decisões do Comitê de Política Monetária. Por isso, afirmar qual seria a taxa em um cenário político alternativo exige uma projeção fundamentada, e não apenas uma estimativa apresentada durante a campanha.
Já a referência de Flávio à dívida pública bruta de aproximadamente R$ 11 trilhões foi considerada verdadeira pelo UOL Confere. A Dívida Bruta do Governo Geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). No fim de 2022, o indicador estava em R$ 7 trilhões, ou 73,5% do PIB.
A comparação mostra o crescimento do indicador, mas não explica isoladamente as causas nem permite avaliar toda a situação fiscal. Para isso, é necessário observar também as receitas, as despesas, os juros, o crescimento da economia e a trajetória da dívida em relação ao PIB.
Lula também afirmou que a economia brasileira não crescia acima de 3% desde que deixou a Presidência, em 2010. A declaração foi contestada pela checagem: o PIB cresceu 3,9% em 2011 e 3% em 2013, durante o governo de Dilma Rousseff. O dado mostra que a afirmação presidencial não corresponde ao histórico econômico do período.
Bolsa Família, custo de vida e combate à fome
Os programas sociais e o poder de compra das famílias tiveram espaço importante no confronto. Flávio destacou o pagamento de R$ 600 durante o governo Bolsonaro, mas a checagem do UOL Confere apontou que esse valor foi estabelecido temporariamente para o Auxílio Brasil entre agosto e dezembro de 2022. A proposta orçamentária enviada pelo governo Bolsonaro para 2023 previa o retorno do benefício médio a R$ 405.
O pagamento de R$ 600 ocorreu, mas a informação precisava ser contextualizada: o valor não correspondeu a todo o período do governo Bolsonaro e sua continuidade não estava prevista na proposta orçamentária original para o ano seguinte.
Flávio também atribuiu à inflação atual a redução do tamanho de embalagens de produtos. A prática, conhecida como reduflação, consiste em diminuir a quantidade vendida sem necessariamente reduzir o preço na mesma proporção. A checagem encontrou embalagens menores de chocolate já comercializadas em 2022, durante o governo anterior, o que impede atribuir o início desse fenômeno exclusivamente à atual administração.
Lula, por sua vez, afirmou que a fome havia sido eliminada no Brasil em 2012. A declaração foi considerada imprecisa: o país saiu do Mapa da Fome das Nações Unidas em 2014, mas isso não significou que a fome tivesse desaparecido completamente.
O presidente também mencionou a existência de aproximadamente 33 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar grave quando voltou ao governo, em 2023. Essa afirmação foi considerada verdadeira pelo UOL Confere, com base em levantamento nacional sobre insegurança alimentar.
Os exemplos mostram como datas e definições estatísticas alteram o significado de uma declaração. Sair do Mapa da Fome, reduzir a insegurança alimentar ou ampliar um benefício social são resultados distintos e precisam ser apresentados com precisão.
Segurança pública e a situação da Cracolândia
A segurança pública foi outro tema de confronto. Flávio Bolsonaro afirmou que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o prefeito Ricardo Nunes haviam acabado com a Cracolândia, região historicamente associada à concentração de usuários de drogas na capital paulista.
O UOL Confere classificou a afirmação como falsa. Embora usuários tenham deixado áreas específicas do centro da cidade, eles continuaram circulando por outras ruas e locais da região. A checagem também apontou aumento de casos graves de dependência química acompanhados no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
A questão demonstra a diferença entre dispersar uma concentração de pessoas e resolver um problema complexo que envolve dependência química, saúde pública, assistência social e segurança. A avaliação de resultados exige indicadores consistentes e acompanhamento ao longo do tempo.
Declarações sobre criminalidade também precisam distinguir categorias diferentes, como homicídios, feminicídios, roubos e outros crimes. A redução de um indicador não significa necessariamente que todos os tipos de violência tenham diminuído.
Transposição do São Francisco e disputa pelo legado de governos
A transposição do Rio São Francisco também apareceu na disputa pelo mérito de obras públicas. Flávio atribuiu a Jair Bolsonaro a conclusão do empreendimento e a chegada da água ao Nordeste.
A checagem do UOL Confere classificou a declaração como enganosa, pois o projeto foi executado em diferentes etapas ao longo de várias administrações federais. A obra teve planejamento, investimentos e execução durante governos distintos, de modo que sua história não pode ser atribuída integralmente a um único presidente.
A disputa pelo legado de grandes empreendimentos é recorrente em campanhas eleitorais. Para avaliar a contribuição de cada governo, é necessário diferenciar planejamento, contratação, execução de trechos, conclusão e início da operação. Essa distinção permite compreender melhor o papel de cada administração e evita simplificações.
Acusações pessoais exigem cautela
Além dos temas econômicos e sociais, o debate incluiu acusações pessoais e referências a controvérsias políticas. Nesses casos, é essencial distinguir declarações de campanha, documentos confirmados, suspeitas e fatos comprovados pelas autoridades.
Um dos assuntos mencionados envolveu um áudio atribuído ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e supostos pagamentos relacionados a produções audiovisuais. A origem da gravação não estava confirmada de maneira independente nas checagens consultadas. Por isso, o conteúdo não deve ser apresentado como prova definitiva de irregularidade ou crime.
A existência de uma gravação atribuída a determinada pessoa não comprova, por si só, sua autenticidade, o contexto em que foi produzida ou a veracidade do que é dito. A publicação responsável exige confirmação documental, manifestação das partes envolvidas e informações oficiais quando houver investigação.
O mesmo cuidado deve ser aplicado às acusações relacionadas à segurança pública e a pessoas investigadas ou acusadas. Investigação, acusação formal e condenação são situações jurídicas diferentes e não podem ser tratadas como equivalentes.
O que fica para o eleitor
O último debate televisivo antes do segundo turno reuniu temas diretamente ligados à vida dos brasileiros: custo de vida, programas sociais, dívida pública, infraestrutura e segurança. Também evidenciou como números e referências históricas podem ser apresentados de maneira incompleta ou fora de contexto para reforçar argumentos políticos.
As checagens independentes ajudam a esclarecer as divergências, mas não substituem a avaliação das propostas, de sua viabilidade, dos custos envolvidos e dos resultados das políticas públicas. Tampouco determinam, isoladamente, quem teve melhor desempenho no confronto.
Lula procurou defender os resultados de suas administrações, enquanto Flávio enfatizou críticas ao governo atual e apresentou alternativas. A eficácia dessas estratégias depende da forma como os eleitores interpretam as respostas e avaliam a credibilidade de cada candidato.
Com o segundo turno marcado para domingo, 25 de outubro, o debate encerrou a etapa de confrontos televisivos da campanha. O encontro não estabeleceu um vencedor incontestável, mas deixou uma mensagem central: antes de aceitar uma afirmação política como verdadeira, é necessário conferir os dados, observar o contexto e distinguir promessas, opiniões, acusações e fatos comprovados.
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