Pescadores franceses bloqueiam depósitos de petróleo e incendeiam barricadas contra alta dos combustíveis

TimeCras
Roberto Farias
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Frontignan / Paris, 17 de setembro de 2026

Pescadores do sul da França mantêm nesta quinta-feira o cerco a depósitos de combustível e portos na região do Mediterrâneo. Desde as primeiras horas da manhã, entre 150 e 200 profissionais impedem a entrada e a saída de caminhões-tanque no terminal petrolífero de Frontignan, no departamento de Hérault. Ao mesmo tempo, dezenas de barcos de pesca ocupam o porto de Sète e o porto de Nice, interrompendo o tráfego comercial e turístico.

Os manifestantes montaram barricadas com paletes e pneus, que foram incendiados. Colunas de fumaça negra subiram sobre as vias de acesso. A polícia acompanha as ações, mas até o momento não se registraram confrontos de maior gravidade. A operação é apresentada pelos próprios pescadores como “simbólica” e ocorre horas antes de uma reunião em Paris com a ministra do Mar e da Pesca, Catherine Chabaud.

A mobilização começou no início da semana e ganhou intensidade na terça-feira (15), quando dezenas de pescadores bloquearam por várias horas o terminal de Fos-sur-Mer, próximo a Marselha. Cerca de 50 caminhões-tanque ficaram retidos e os bombeiros precisaram apagar fogueiras. Faixas com frases como “A Europa nos mata” e “A UE afunda nossos barcos e Paris nos observa” foram estendidas nos locais de protesto.

O que motiva a revolta

O estopim é o preço do diesel, combustível indispensável para a frota pesqueira. Nesta quinta-feira, a média nacional ultrapassou 2,37 euros por litro — o equivalente a cerca de R$ 14,80 na cotação atual. O valor está próximo do recorde histórico de 2,38 euros. Em algumas regiões, o custo praticamente dobrou em seis meses. Pescadores relatam que a rentabilidade das embarcações despencou e que muitos profissionais viram a renda cair pela metade nos últimos cinco anos.

Além do preço do combustível, a categoria critica o excesso de normas europeias e nacionais que elevam os custos operacionais e restringem áreas de pesca. O plano WestMed, que limita atividades no Mediterrâneo, está entre os principais alvos das reclamações. Os representantes pedem uma ajuda de 50 centavos de euro por litro, superior aos 35 centavos anunciados pelo governo.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu determinou a prorrogação até 31 de dezembro das ajudas direcionadas a combustíveis para setores sensíveis e elevou o valor pago aos pescadores de 25 para 35 centavos por litro. A medida foi considerada insuficiente. “Não é um presente. Os 10 centavos a mais não acompanham a alta real do preço”, afirmou Ange Natoli, pescador de Martigues e um dos porta-vozes do movimento.

Contexto internacional e reflexos no Brasil

A alta dos combustíveis na França está diretamente ligada à instabilidade no Oriente Médio e à pressão sobre as rotas de petróleo, cenário que já eleva cotações em vários países europeus. Para o leitor brasileiro, o episódio serve de alerta. Embora o Brasil seja grande produtor de petróleo, a volatilidade internacional afeta o preço dos derivados importados e o custo do diesel usado na frota pesqueira nacional, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Quando o barril sobe no mercado global, o efeito chega às bombas e aos barcos brasileiros com algum atraso, mas de forma consistente.

Cenários possíveis

Se a reunião desta quinta-feira com a ministra produzir compromissos concretos de apoio financeiro e revisão de regras, a tendência é de arrefecimento gradual dos bloqueios. O governo francês, a nove meses da eleição presidencial, tem interesse em evitar que a revolta se espalhe para agricultores e transportadores, setores que já demonstraram capacidade de paralisar o país em movimentos anteriores.

Caso as conversas fracassem, os pescadores ameaçam ampliar as ações para os portos de Marselha e Toulon. Bloqueios prolongados podem gerar atrasos no abastecimento de postos no sul da França e pressionar ainda mais o preço na bomba. Em um cenário de escalada, a mobilização pode servir de inspiração para outros grupos atingidos pelo custo de vida, relembrando o impacto dos Coletes Amarelos.

A crise revela a vulnerabilidade de um setor tradicional diante da combinação de preços energéticos voláteis e exigências ambientais europeias. Enquanto as negociações avançam em Paris, as barricadas fumegantes em Frontignan e os barcos parados nos portos mantêm a pressão e mostram que, para os pescadores franceses, o custo de continuar trabalhando se tornou insustentável.

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