Flávio Dino derruba afastamento determinado por André Mendonça e manda reconduzir Andrei Rodrigues e Leandro Almada; AGU mantém recurso e Fachin terá de administrar novo conflito dentro do Supremo
Brasília, 9 de setembro de 2026 — atualização às 17h52
A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Polícia Federal ganhou nesta quarta-feira (9) um novo capítulo e aumentou a tensão dentro da própria Corte. O ministro Flávio Dino determinou a reintegração imediata de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal e de Leandro Almada da Costa à direção de Inteligência da corporação, revertendo os efeitos da decisão tomada na véspera pelo ministro André Mendonça.
A decisão de Dino produziu uma nova situação de conflito entre ministros do STF. Na terça-feira (8), Mendonça havia determinado o afastamento preventivo dos dois dirigentes, alegando que relatórios de inteligência teriam sido utilizados para monitorá-lo e também atingir o advogado-geral da União, Jorge Messias. Nesta quarta, Dino considerou que o afastamento não estava suficientemente fundamentado e poderia prejudicar investigações em andamento.
Com a nova decisão, Andrei Rodrigues e Leandro Almada voltam a exercer integralmente suas funções. A determinação permanece válida até nova deliberação do Supremo.
Dino reage ao afastamento determinado por Mendonça
Flávio Dino concedeu tutela provisória solicitada por Andrei Rodrigues em um processo sob sua relatoria e determinou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que assegure a imediata recondução dos dois delegados aos respectivos cargos.
Na decisão, Dino sustentou que o afastamento poderia provocar prejuízos às investigações conduzidas pela Polícia Federal. O ministro também questionou aspectos processuais da decisão de Mendonça e levantou dúvidas sobre a possibilidade de um ministro atuar em uma situação na qual suas próprias circunstâncias pessoais aparecem relacionadas aos fatos investigados.
Dino citou ainda a existência de um encontro entre André Mendonça e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, afirmando que o episódio exigiria cautela adicional, embora tenha ressaltado que não estava fazendo juízo sobre o conteúdo da reunião.
Outro argumento apresentado por Dino foi a legitimidade do partido Novo para formular o pedido de afastamento dentro de uma investigação criminal. O ministro questionou se uma legenda partidária poderia requerer diretamente uma medida cautelar dessa natureza.
André Mendonça havia determinado afastamento dos dois dirigentes
A decisão de Mendonça, tomada na terça-feira, afastou preventivamente Andrei Rodrigues e Leandro Almada e determinou a abertura de apuração pela Corregedoria da Polícia Federal.
O ministro afirmou ter sido alvo de monitoramento sistemático e coleta dirigida de informações por meio de relatórios de inteligência que, segundo sua decisão, também envolveriam Jorge Messias.
Mendonça classificou como irregular a elaboração e a circulação dos documentos e considerou que a permanência dos dirigentes nos cargos poderia representar risco à continuidade das condutas que estavam sendo investigadas.
O caso ganhou força depois que um relatório da Polícia Federal foi utilizado em uma solicitação relacionada à investigação de Mendonça. O ministro considerou o documento tecnicamente inadequado e determinou que sua origem e produção fossem investigadas.
As acusações, entretanto, continuam sendo objeto de investigação e não constituem, neste momento, uma conclusão definitiva de responsabilidade criminal ou administrativa dos dirigentes da Polícia Federal.
Segunda Turma havia formado maioria pelo afastamento
Antes da decisão de Dino, a Segunda Turma do STF havia formado maioria para manter o afastamento determinado por Mendonça.
Os votos favoráveis à manutenção da medida foram dados por André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques. O ministro Gilmar Mendes pediu vista, interrompendo o julgamento. Dias Toffoli ainda não havia concluído sua participação no caso.
O pedido de vista não havia derrubado a decisão de Mendonça. Naquele momento, portanto, o afastamento permanecia em vigor.
A decisão de Dino mudou esse cenário. Agora existe uma situação excepcional dentro do STF: uma decisão de um ministro restabeleceu os cargos que haviam sido retirados por outro ministro, depois que a Segunda Turma havia formado maioria pela manutenção do afastamento.
O episódio elevou a pressão sobre o presidente da Corte, Edson Fachin.
Fachin havia dado 72 horas a Mendonça
Antes da decisão de Dino, a AGU havia recorrido ao presidente do STF contra o afastamento de Andrei Rodrigues.
A Advocacia-Geral da União argumentou que a decisão interferia na competência constitucional do presidente da República para nomear e exonerar o diretor-geral da Polícia Federal.
Edson Fachin, em vez de suspender imediatamente a decisão, determinou que André Mendonça apresentasse manifestação no prazo de 72 horas.
Esse prazo continuava em andamento quando Dino decidiu pela reintegração dos dois dirigentes.
A intervenção de Dino alterou significativamente o cenário que Fachin vinha administrando. O presidente do STF agora precisa lidar simultaneamente com o recurso da AGU, a decisão de Mendonça, a nova decisão de Dino e o julgamento que havia sido interrompido na Segunda Turma.
Plenário deverá analisar a decisão de Dino
A decisão de Flávio Dino ainda deverá ser analisada pelo Plenário do STF, mas, até o momento desta atualização, não há data oficialmente confirmada para esse julgamento.
Essa informação é importante porque versões anteriores sobre o caso chegaram a indicar uma data específica para a análise plenária. Até esta atualização, porém, essa data não está confirmada por fonte suficientemente segura e, por isso, não deve ser publicada como fato.
Enquanto não houver nova decisão colegiada, a determinação de Dino produz efeitos e Andrei Rodrigues e Leandro Almada permanecem reintegrados aos cargos.
Crise expõe divisão dentro do Supremo
O episódio deixou evidente uma divisão incomum dentro do STF.
De um lado está André Mendonça, que sustenta ter sido alvo de monitoramento ilegal e defende a necessidade de afastar os dirigentes da PF para proteger as investigações.
Do outro está Flávio Dino, que considera o afastamento sem fundamentação suficiente e vê risco de prejuízo às investigações caso Andrei e Almada permaneçam fora de suas funções.
A situação também envolve diretamente Edson Fachin, que havia escolhido uma estratégia mais cautelosa ao conceder prazo para Mendonça se manifestar sobre o recurso da AGU.
A decisão de Dino acabou antecipando uma solução para o comando da PF antes de Fachin concluir essa análise.
Reação dentro da Polícia Federal
A cúpula da Polícia Federal reagiu fortemente ao afastamento determinado por Mendonça.
Onze dos 13 diretores da corporação manifestaram apoio a Andrei Rodrigues, em uma demonstração de resistência à decisão que retirou o diretor-geral do cargo.
A medida provocou preocupação sobre os efeitos da disputa judicial na condução das investigações e na estabilidade da estrutura de comando da instituição.
Com a decisão de Dino, Andrei Rodrigues reassumiu a direção-geral e Leandro Almada voltou à direção de Inteligência.
Governo e AGU ficam no centro do conflito
A AGU havia colocado o governo Lula diretamente na disputa ao contestar o afastamento de Andrei.
O argumento do órgão é que a direção da Polícia Federal integra a estrutura administrativa do Executivo e que a escolha de seu diretor-geral cabe ao presidente da República.
A reintegração determinada por Dino atende, na prática, à reivindicação central apresentada pelo governo, embora tenha ocorrido por uma decisão judicial independente do recurso que Fachin ainda analisa.
O Palácio do Planalto passa, portanto, a acompanhar uma disputa que envolve diretamente a autonomia administrativa da PF e os limites da intervenção judicial sobre o comando da instituição.
Caso Banco Master permanece no centro da crise
O conflito está ligado às investigações envolvendo o Banco Master, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e documentos produzidos pela área de inteligência da Polícia Federal.
O caso ganhou dimensão ainda maior porque diferentes ministros do STF aparecem relacionados a etapas distintas das investigações.
O ministro André Mendonça é relator de processos relacionados ao Banco Master e afirma ter sido alvo de monitoramento. Ao mesmo tempo, o nome do ministro Alexandre de Moraes também passou a aparecer no debate político e institucional em razão de questionamentos sobre relações envolvendo o banco.
A crise, porém, não autoriza concluir que qualquer dos ministros tenha cometido irregularidade. As circunstâncias continuam sendo objeto de apuração e disputa judicial.
Reação política aumenta a pressão
A decisão de Dino provocou reação imediata no campo político.
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro criticou a reintegração de Andrei e Almada e acusou Dino de interferência política no processo. As declarações foram feitas durante agenda de campanha nesta quarta-feira.
A crise ocorre em um momento particularmente sensível, com as eleições presidenciais de 2026 se aproximando. Por isso, qualquer decisão envolvendo STF, Polícia Federal, governo e investigações sobre autoridades passou a ter impacto também no ambiente eleitoral.
O que acontece agora
O cenário permanece aberto.
Andrei Rodrigues e Leandro Almada estão reintegrados aos cargos por determinação de Flávio Dino. A decisão de André Mendonça que os havia afastado foi, na prática, suspensa para os dois dirigentes.
A AGU continua envolvida no processo apresentado a Edson Fachin, que havia dado 72 horas para Mendonça responder. Paralelamente, a decisão de Dino deverá ser submetida ao Plenário do STF.
A Segunda Turma, que havia formado maioria para manter o afastamento antes do pedido de vista de Gilmar Mendes, também permanece no centro da controvérsia.
O próximo movimento de Fachin, Mendonça e do próprio Plenário poderá determinar se a reintegração será mantida, modificada ou novamente contestada.
Por enquanto, o fato objetivo é que a Polícia Federal voltou a ter Andrei Rodrigues na direção-geral e Leandro Almada na direção de Inteligência, enquanto o STF enfrenta uma das mais graves disputas internas recentes envolvendo o comando de uma instituição federal.
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