Rio de Janeiro – Uma estatal federal ligada ao governo federal abriga uma extensa rede de militantes, cabos eleitorais e pessoas ligadas a políticos em um convênio de R$ 35 milhões firmado sem licitação com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A denúncia, revelada nesta segunda-feira (27) pelo UOL Tab, levanta questionamentos sobre possível uso de recursos públicos para fins eleitorais às vésperas das eleições de 2026.
O convênio entre a PortosRio (Companhia Docas do Rio de Janeiro) e a UFRJ prevê o desenvolvimento de estudos técnicos em logística portuária, engenharia, regulação e ações de integração com comunidades do entorno. No entanto, uma folha de pagamentos sigilosa da primeira parcela — no valor de R$ 8,9 milhões — mostra que centenas de beneficiários possuem vínculos diretos com a política fluminense, especialmente na Baixada Fluminense.
De acordo com o levantamento, ao menos 305 bolsistas com ligações políticas receberam R$ 5,6 milhões apenas na primeira transferência, realizada entre janeiro e março deste ano. Entre eles estão ex-candidatos a vereador, suplentes de câmara municipal, ex-servidores de prefeituras aliadas, familiares de deputados e vereadores, e até criadores de jingles eleitorais. Muitos atuaram em campanhas recentes, incluindo a de 2022 e as municipais de 2024.
Influência política na estatal
A PortosRio, responsável pela administração de portos como o do Rio, Itaguaí e Niterói, teria se tornado um espaço de influência do ex-prefeito de Belford Roxo, Wagner Carneiro, conhecido como Waguinho (Republicanos). Aliado de peso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na região, Waguinho não ocupa cargo formal na empresa atualmente, mas emplacou dezenas de aliados em posições na estatal, incluindo ex-secretários de sua gestão.
A reportagem cruzou nomes e CPFs dos bolsistas com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Portal da Transparência e diários oficiais. Os resultados apontam para uma capilaridade que alcança ao menos 48 municípios fluminenses. Casos emblemáticos incluem famílias inteiras de assessores e vereadores que acumulam bolsas enquanto mantêm atuação política ativa.
A UFRJ informou que parte dos bolsistas foi indicada pela própria PortosRio para o programa “Capacita Portos”, voltado a cursos online sobre temas portuários e sustentabilidade. A universidade separa esses participantes dos selecionados diretamente para atividades técnico-científicas.
Respostas dos envolvidos
Procurada, a PortosRio afirmou que o convênio tem finalidade exclusivamente técnica e de capacitação, negando qualquer irregularidade. A empresa destacou que não mantém cadastro de filiação partidária dos beneficiários e que o acordo foi suspenso temporariamente em abril por recomendação da auditoria interna, sendo restabelecido em junho.
Waguinho e a deputada federal Daniela Carneiro (sua esposa) negaram participação na seleção dos bolsistas ou em qualquer procedimento administrativo do convênio. O Palácio do Planalto, por sua vez, declarou que “as nomeações e a gestão das empresas estatais observam a legislação vigente e os respectivos mecanismos de governança”.
Contexto e riscos eleitorais
O caso ocorre em ano eleitoral e remete a episódios anteriores no Rio de Janeiro, como o da Fundação Ceperj, que resultou na condenação do ex-governador Cláudio Castro por abuso de poder político e econômico. A legislação eleitoral proíbe o uso de estruturas públicas para favorecimento eleitoral, configurando potencial abuso se comprovada a destinação de recursos para militância disfarçada.
Especialistas consultados por diferentes veículos apontam que, embora convênios de capacitação sejam comuns, a concentração de beneficiários com perfil político em uma estatal federal exige investigação rigorosa por parte dos órgãos de controle, como Tribunal de Contas da União (TCU) e Ministério Público.
A PortosRio tem orçamento de investimentos previsto de R$ 200 milhões para 2026. O convênio com a UFRJ previa repasses em três parcelas, com a última programada para setembro — mês anterior ao primeiro turno das eleições.
Esta reportagem buscou ouvir todos os lados mencionados. A apuração continua e novos desdobramentos devem ser acompanhados pelos órgãos de fiscalização e pela Justiça Eleitoral.
Fontes: UOL Tab, declarações oficiais das instituições envolvidas e cruzamento de bases públicas (TSE, Portal da Transparência).
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