Coreia do Sul avança para o fim da era da carne de cachorro: proibição total se aproxima em 2027

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Roberto Farias
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Seul, Coreia do Sul – Em um marco histórico para o bem-estar animal e a transformação cultural do país, a Coreia do Sul caminha de forma acelerada para extinguir a indústria de carne de cachorro. A lei aprovada em janeiro de 2024, que proíbe a criação, abate, distribuição e venda de cães para consumo humano, entrará plenamente em vigor em fevereiro de 2027, após um período de transição que já mostra resultados expressivos.

Segundo dados do Ministério da Agricultura, Alimentação e Assuntos Rurais (MAFRA), divulgados no final de 2025, cerca de 78% das fazendas registradas (1.204 de um total de 1.537) já encerraram suas operações. Muitas propriedades optaram pelo fechamento antecipado, superando as expectativas do governo para o cronograma de transição.

A legislação, aprovada por unanimidade na Assembleia Nacional, não criminaliza o ato individual de consumir carne de cachorro, mas torna ilegal toda a cadeia produtiva — desde a criação até a comercialização. As penalidades são rigorosas: até três anos de prisão ou multas que podem chegar a cerca de 30 milhões de wons (aproximadamente R$ 120 mil). O governo oferece apoio financeiro e programas de reconversão profissional para criadores, abatedores e donos de restaurantes, reconhecendo o impacto econômico em um setor que, embora em declínio, ainda empregava milhares de pessoas.

Mudança geracional e cultural
A prática de consumir carne de cachorro (conhecida como gaegogi) tem raízes históricas na península coreana, associada tradicionalmente a períodos de escassez e a crenças medicinais. No entanto, nas últimas décadas, o hábito vem caindo drasticamente, especialmente entre as novas gerações. Pesquisas recentes, como as da Gallup, indicam que apenas cerca de 8% dos sul-coreanos consumiram carne de cachorro nos últimos 12 meses, contra 27% em 2015. A grande maioria dos jovens enxerga os cães como animais de companhia, não como fonte de alimento.

Essa evolução reflete transformações mais amplas na sociedade sul-coreana: urbanização acelerada, influência ocidental, maior consciência sobre direitos animais e o fortalecimento do movimento pet, que transformou o país em um dos maiores mercados de produtos para animais de estimação da Ásia.

Desafios da transição
Apesar dos avanços, o período de transição não é isento de desafios. Estimativas indicam que centenas de milhares de cães ainda estão em fazendas ativas. Organizações de proteção animal acompanham de perto o destino desses animais, pressionando por soluções humanitárias, como adoção, santuários ou realocação responsável. O governo tem trabalhado em planos para evitar eutanásias em massa, mas o tema permanece sensível.

Especialistas avaliam a lei como um modelo de política pública equilibrada: combina proibição com apoio aos afetados, evitando rupturas abruptas. “É uma vitória para o bem-estar animal, mas também para a imagem moderna da Coreia do Sul no cenário internacional”, avalia ativistas consultados por veículos internacionais.

Um precedente global?
A experiência sul-coreana é observada com atenção por outros países asiáticos onde o consumo de carne de cachorro ainda existe, como Vietnã, China e Filipinas. A proibição representa não apenas uma mudança legislativa, mas um sinal de que tradições podem — e muitas vezes devem — evoluir diante de novos valores éticos e científicos sobre o sofrimento animal.

Com a data de 2027 se aproximando, o país se prepara para virar uma página de sua história. Para milhões de cães que anualmente eram destinados ao abate, o fim de uma indústria centenária pode significar, finalmente, o direito a uma vida digna.


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