Brasil e Venezuela: Uma Suposta Frente Contra os EUA ou Apenas Retórica Diplomática?

TimeCras
Roberto Farias
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As tensões na América Latina ganharam um novo capítulo com a recente afirmação do ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, de que Brasil e Venezuela teriam emitido uma declaração conjunta condenando as “agressões dos EUA” contra a região. A fala, amplificada por canais estatais venezuelanos como a VTV, veio após uma conversa telefônica entre Gil e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, em 27 de agosto de 2025. No entanto, a falta de confirmação oficial por parte do Brasil levanta dúvidas sobre a veracidade dessa suposta aliança e expõe as complexidades da diplomacia brasileira em relação à crise venezuelana.


A declaração de Gil apontou para uma crítica contundente à presença de navios militares americanos no Caribe, incluindo um submarino nuclear, descrito como uma “ameaça sem precedentes” à zona de paz proclamada pela Celac e ao Tratado de Tlatelolco. Segundo o ministro venezuelano, ambos os países teriam exigido o fim imediato dessas ações. Contudo, o Itamaraty não corroborou a existência de tal posicionamento conjunto, mantendo silêncio sobre o tema. Essa discrepância sugere que a narrativa pode ser uma tentativa do governo Maduro de projetar apoio regional em meio à crescente pressão internacional, especialmente dos Estados Unidos, que oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações sobre o líder venezuelano.


O pano de fundo da controvérsia inclui uma reunião anterior, em 21 de agosto, em Bogotá, durante a cúpula da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Nela, Vieira e Gil discutiram questões comerciais e de segurança, com a Venezuela expressando preocupações sobre os movimentos militares americanos. O Brasil, sob a gestão de Lula, tem adotado uma postura de não intervenção, defendendo que a solução para a crise venezuelana deve partir dos próprios venezuelanos. Celso Amorim, assessor especial da Presidência, reforçou essa linha ao expressar inquietação com a presença militar americana, mas sem endossar a retórica inflamada de Caracas.


Paralelamente, especulações sobre uma possível operação brasileira para resgatar Maduro, apelidada de “Operação Imeri” por fontes como o portal DefesaNet, agitaram setores das Forças Armadas brasileiras. A suposta missão envolveria o uso de um avião KC-390 e apoio logístico em Pacaraima, mas foi categoricamente negada pelo Ministério da Defesa, que afirmou não haver “qualquer plano ou operação em curso”. Ainda assim, relatos indicam forte resistência interna, especialmente entre o Corpo de Fuzileiros Navais e o Grupamento de Mergulhadores de Combate (GruMeC), que se opõem a qualquer ação que possa ser vista como apoio ao regime Maduro. A negativa oficial não dissipou completamente as suspeitas, alimentadas por movimentações militares em Boa Vista e exercícios como a Operação Atlas, que poderiam mascarar preparativos sigilosos.


A relação entre Brasil e Venezuela é marcada por contradições. Embora Lula mantenha canais de diálogo com Maduro, a recusa brasileira em apoiar a entrada da Venezuela nos Brics em 2024 gerou atritos, com críticas públicas de Caracas. Essa tensão sugere que o Brasil não está alinhado automaticamente com o governo venezuelano, mas busca um equilíbrio delicado para evitar instabilidade na fronteira e um novo fluxo migratório em Roraima. A retórica de solidariedade latino-americana, comum em setores do governo, pode ser confundida com apoio explícito a Maduro, mas a ausência de uma condenação formal aos EUA indica cautela diplomática.


O caso expõe a dificuldade do Brasil em navegar entre sua tradição de não intervenção, pressões internacionais e divisões internas. Enquanto a Venezuela utiliza a narrativa de uma frente unificada contra os EUA para reforçar sua posição, o silêncio brasileiro sugere que a suposta declaração conjunta pode ser mais uma peça de propaganda do que um fato consumado. A situação permanece fluida, com a possibilidade de novos desdobramentos à medida que a pressão americana sobre Maduro se intensifica.


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