Teerã, Irã — 10 de agosto de 2026 — O Irã não espera alcançar um acordo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pretende manter sua atual estratégia até o fim do mandato americano, segundo Majid Shakeri, analista conservador influente e assessor ligado ao presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf.
“Trump não chegará a um acordo conosco. Nós o acompanharemos até o fim de seu mandato”, afirmou Shakeri, segundo traduções de suas declarações divulgadas nesta segunda-feira.
Shakeri, que já assessorou Ghalibaf e participou de equipes de negociação anteriores, não ocupa atualmente um cargo oficial formal no governo, mas suas declarações têm repercutido em setores políticos iranianos. A fala representa um novo sinal de endurecimento da posição de grupos conservadores diante de Washington. Ao mesmo tempo, ocorre em um momento no qual ainda existem discussões em andamento sobre a crise no Estreito de Ormuz, o que torna inadequado interpretá-la como um anúncio de ruptura definitiva de todos os canais diplomáticos.
A mensagem de Shakeri indica que Teerã não pretende aceitar rapidamente um acordo com a administração Trump e está disposto a prolongar a disputa política enquanto preserva suas principais exigências.
Irã mantém pressão sobre o Estreito de Ormuz
O principal ponto de tensão nas negociações atualmente é o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio mundial de energia.
O Irã mantém a posição de que a passagem não será reaberta sem que os Estados Unidos atendam às condições apresentadas por Teerã. Entre as exigências iranianas estão medidas relacionadas às sanções, ao bloqueio de portos e ativos e às consequências do conflito.
A questão transformou a reabertura do estreito em um dos principais testes para qualquer eventual acordo.
Trump reage e aumenta as exigências
A posição iraniana recebeu uma resposta direta de Trump.
O presidente americano rejeitou a possibilidade de os Estados Unidos pagarem reparações exigidas por Teerã pelos danos provocados pelo conflito. Em vez disso, afirmou que Washington pretende exigir compensações do Irã por mortes e danos atribuídos a forças iranianas e grupos apoiados pelo país.
A reação acrescentou uma nova camada de dificuldade às negociações. A exigência americana representa uma escalada retórica que pode complicar os esforços para alcançar um acordo capaz de permitir a reabertura do Estreito de Ormuz.
O paradoxo das negociações
O cenário atual apresenta uma contradição importante.
Isso significa que a declaração do assessor deve ser interpretada com cautela. Ela pode representar a avaliação de que um grande acordo político com Trump é improvável, sem necessariamente significar que Teerã tenha abandonado negociações específicas sobre segurança marítima, sanções ou a reabertura do estreito.
Essa distinção é fundamental para compreender o momento atual.
Uma estratégia baseada no tempo
A referência ao fim do mandato de Trump também revela uma possível estratégia política iraniana.
Ao afirmar que Teerã pretende “acompanhar” Trump até o final de sua Presidência, Shakeri sugere que o Irã pode estar disposto a suportar uma disputa prolongada na expectativa de que o cenário político americano se altere no futuro.
Nesse cálculo, aceitar agora um acordo considerado desfavorável poderia ser menos interessante do que preservar posições e aguardar uma eventual mudança de governo em Washington.
A estratégia, entretanto, envolve riscos. Quanto mais tempo durar a crise, maiores poderão ser os custos econômicos, militares e diplomáticos para o Irã.
Ormuz coloca o mundo em alerta
O Estreito de Ormuz possui importância que ultrapassa a disputa entre Irã e Estados Unidos.
A região é uma das principais rotas de transporte marítimo de petróleo e gás do planeta. Antes do conflito, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados mundialmente passava pela região.
Por isso, qualquer incerteza prolongada sobre a navegação provoca reação imediata dos mercados. Nesta segunda-feira, os preços do petróleo subiram com força diante das dúvidas sobre a possibilidade de reabertura do estreito. O petróleo Brent chegou a registrar alta superior a 4% durante as negociações, refletindo a preocupação dos investidores com a continuidade da crise.
Impactos para o Brasil
Uma crise prolongada em Ormuz pode ter consequências para países muito distantes do Oriente Médio, incluindo o Brasil.
O petróleo é uma commodity negociada internacionalmente e influencia custos de combustíveis, transporte, aviação, logística e produção industrial. Uma alta prolongada das cotações pode aumentar os custos de diversos setores e contribuir para pressões inflacionárias.
No caso brasileiro, entretanto, não é possível afirmar que uma alta internacional do petróleo será automaticamente repassada na mesma proporção aos consumidores. O impacto dependerá também do câmbio, das condições do mercado doméstico e das decisões das empresas e autoridades responsáveis pelos preços dos combustíveis.
A questão militar permanece no pano de fundo
A disputa diplomática ocorre em um ambiente ainda marcado pela possibilidade de novas escaladas militares.
O Estreito de Ormuz é particularmente sensível porque envolve interesses simultâneos do Irã, dos Estados Unidos, de países produtores de petróleo e de grandes consumidores de energia. Qualquer incidente envolvendo navios, instalações militares ou infraestrutura energética pode provocar uma reação em cadeia.
Por isso, mesmo quando os canais diplomáticos permanecem abertos, o risco de uma nova escalada continua sendo um dos principais obstáculos para um acordo duradouro.
O que a declaração de Shakeri realmente significa
A declaração de Majid Shakeri não deve ser tratada como uma confirmação de que o Irã encerrou definitivamente as negociações com os Estados Unidos.
O que ela demonstra, com maior segurança, é que há setores importantes da política iraniana que não acreditam em um acordo rápido com Trump e defendem uma estratégia de resistência prolongada.
Essa posição pode coexistir com negociações específicas sobre Ormuz e outros temas. O cenário, portanto, não é simplesmente de “negociação” ou “ruptura”. Washington e Teerã podem continuar conversando enquanto mantêm posições públicas extremamente duras e tentam aumentar o custo político para o adversário.
Um acordo ainda parece distante
As novas exigências apresentadas pelos dois lados tornam um entendimento mais difícil.
O Irã exige concessões americanas para a retomada da navegação pelo Estreito de Ormuz. Trump, por sua vez, rejeita as reivindicações iranianas de reparação e afirma que pretende apresentar suas próprias exigências.
O resultado é uma negociação na qual cada lado tenta transferir para o adversário parte dos custos do conflito. Enquanto isso, a situação de Ormuz continua afetando os mercados de energia e aumentando a pressão sobre governos e empresas que dependem da estabilidade da rota marítima.
Próximos passos
Os próximos dias serão importantes para determinar se as conversas sobre Ormuz conseguirão produzir algum resultado concreto.
Caso Irã e Estados Unidos não consigam aproximar suas posições, a tendência é de manutenção da pressão econômica e diplomática, com o risco de novas tensões militares. Se houver avanços, a reabertura ou normalização do tráfego pelo estreito poderá reduzir parte da pressão sobre os mercados de petróleo.
Conclusão
A declaração de Majid Shakeri, analista conservador influente e assessor ligado ao presidente do Parlamento iraniano Mohammad Bagher Ghalibaf, reforça a percepção de que setores políticos de Teerã não esperam um acordo abrangente com Donald Trump no curto prazo.
Ao dizer que o Irã pretende acompanhar o presidente americano até o fim de seu mandato, Shakeri sinaliza uma estratégia baseada em resistência e espera, na tentativa de preservar a capacidade de negociação iraniana diante de Washington.
Mas o cenário é mais complexo do que uma simples ruptura. Enquanto Shakeri fala em resistir até o fim do mandato de Trump, as discussões relacionadas ao Estreito de Ormuz continuam, embora estejam enfrentando exigências cada vez mais difíceis dos dois lados. Trump rejeitou as reivindicações iranianas de reparação e passou a defender compensações do próprio Irã, aumentando a distância entre as posições.
O Estreito de Ormuz permanece no centro da crise. Sua importância para o comércio mundial de energia faz com que qualquer prolongamento da disputa tenha potencial para afetar o petróleo, os mercados financeiros e a economia internacional.
Por enquanto, o principal sinal é de impasse, e não de uma solução próxima. A capacidade de Washington e Teerã de controlar a escalada e manter algum canal de negociação será decisiva para determinar se a crise avançará para um novo confronto ou encontrará uma saída diplomática.
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