Em meio à guerra mais longa e desgastante da Europa desde a Segunda Guerra Mundial, a Rússia tem recorrido ao míssil balístico de alcance intermediário Oreshnik como símbolo de superioridade tecnológica e instrumento de pressão. Batizado com o nome russo para “avelã”, o sistema representa uma evolução de projetos anteriores, como o RS-26 Rubezh, e tem sido empregado em ataques recentes contra território ucraniano, gerando preocupação em Kiev e nas capitais ocidentais.
Desenvolvido como míssil balístico lançado de plataformas móveis, o Oreshnik destaca-se pela velocidade hipersônica. Durante a fase terminal de reentrada, suas ogivas alcançam mais de Mach 10 (aproximadamente 3 a 3,5 km por segundo), o que reduz drasticamente o tempo de reação das defesas antiaéreas. Seu alcance estimado varia entre 3.500 e 5.500 km, dependendo da configuração de carga, o suficiente para atingir grande parte da Europa a partir de território russo ou bielorrusso.
Uma das características técnicas mais relevantes é o uso de veículos de reentrada múltiplos e independentes (MIRV). O míssil pode carregar até seis ogivas, cada uma capaz de liberar submunições, permitindo saturar defesas e atacar alvos separados simultaneamente. Embora projetado originalmente para ogivas nucleares, as versões empregadas até agora na Ucrânia foram convencionais, explorando principalmente o efeito cinético do impacto em alta velocidade.
As afirmações de Putin e a realidade física
O presidente Vladimir Putin descreveu o sistema em termos dramáticos. Segundo ele, a temperatura das ogivas durante a reentrada atinge níveis comparáveis à superfície do Sol (cerca de 5.500 °C), transformando o impacto em algo semelhante a um meteorito. “Tudo o que se encontra no centro transforma-se em cinzas. Os objetos afetados podem chegar a três ou quatro andares de profundidade”, afirmou em discursos.
Do ponto de vista da física, há fundamento parcial nessas declarações. Ogivas balísticas sofrem aquecimento aerodinâmico extremo por compressão do ar, podendo chegar a milhares de graus Celsius, exigindo escudos ablativos avançados. A energia cinética (½mv²) a essas velocidades é enorme: uma massa relativamente modesta pode liberar energia equivalente a dezenas de quilos de TNT apenas pelo impacto, gerando calor, pressão e crateras localizadas. No entanto, comparações diretas com meteoritos quilométricos ou “lagos inteiros” são exageradas para fins propagandísticos.
Impactos observados em combate
Os registros de uso real mostram um quadro mais nuançado. O primeiro emprego confirmado ocorreu em novembro de 2024 contra Dnipro. Ataques subsequentes, incluindo os de 2026 contra regiões próximas a Kiev e alvos no oeste ucraniano, provocaram danos em infraestrutura, mas não o colapso catastrófico prometido pela retórica russa. Autoridades ucranianas relatam destruição localizada, com edifícios danificados, incêndios e vítimas civis, mas sem efeitos sísmicos ou de penetração profunda generalizada.
Analistas militares observam que, em configuração convencional, o poder destrutivo vem principalmente da velocidade e do efeito de fragmentação das submunições, e não de explosivos de alto rendimento. Isso o torna eficaz contra alvos fixos como depósitos, fábricas ou bases, mas não uma “arma invencível” contra defesas modernas bem distribuídas.
Contexto estratégico e implicações
O uso repetido do Oreshnik sinaliza uma escalada controlada. Ao optar por ogivas convencionais em um sistema projetado para nuclear, Moscou demonstra capacidade sem cruzar a linha vermelha da arma atômica, ao mesmo tempo que testa o sistema em condições reais e envia um recado à Otan: suas defesas antimísseis enfrentam desafios crescentes.
Especialistas ucranianos e ocidentais notam que, embora difícil de interceptar, o Oreshnik não é revolucionário em essência — trata-se de uma combinação de tecnologias balísticas maduras com melhorias em materiais e manobrabilidade. Sua maior relevância pode estar no plano político: reforçar a narrativa interna russa de superioridade e pressionar o Ocidente a limitar o apoio a Kiev.
Enquanto a guerra se arrasta, o Oreshnik ilustra a dualidade das armas modernas: enorme potencial destrutivo combinado com limites práticos impostos pela logística, precisão e capacidade de produção em massa. Seu verdadeiro peso no conflito dependerá não apenas da velocidade das ogivas, mas da estratégia mais ampla que as emprega.
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