Queda excepcional do nível do rio interrompe a geração em Cernavodă; país amplia importações e aciona outras fontes para preservar o abastecimento de eletricidade
Bucareste, Romênia — 13 de agosto de 2026
A Romênia iniciou nesta quinta-feira (13) o desligamento controlado do segundo reator da usina nuclear de Cernavodă, depois que a forte redução do nível do rio Danúbio comprometeu as condições necessárias para o funcionamento seguro da instalação. Com a medida, os dois reatores da única usina nuclear do país estão temporariamente fora de operação.
O primeiro reator havia sido desligado em 28 de julho, também devido à escassez de água provocada pela seca. A paralisação da segunda unidade representa uma perda de aproximadamente 1,4 gigawatt de capacidade nuclear. Em condições normais, os dois reatores fornecem cerca de 20% da eletricidade produzida na Romênia.
A situação é excepcional. O episódio atual é associado à primeira interrupção provocada por condições semelhantes desde a grave seca registrada em 2003, há 23 anos.
Por que o nível do Danúbio é tão importante
O problema não está em uma falha dos reatores.
Cernavodă utiliza água do Danúbio em seu sistema de resfriamento. A operação de uma usina nuclear exige a remoção contínua do calor produzido durante o processo de geração. Quando a disponibilidade de água cai a níveis críticos, a manutenção da operação deixa de oferecer as condições necessárias de segurança.
Diante da queda persistente do rio, a operadora estatal Nuclearelectrica decidiu retirar a segunda unidade de funcionamento de maneira controlada. A empresa informou que colocar os dois reatores em estado seguro não representa risco para a segurança nuclear, os trabalhadores, a população ou o meio ambiente.
Portanto, não se trata de um acidente nuclear nem de um vazamento radioativo. O episódio é uma crise de disponibilidade de água com consequências diretas para o sistema elétrico romeno.
Tentativas de manter o reator em funcionamento
As autoridades tentaram evitar a paralisação completa.
Nos últimos dias, foram realizadas intervenções no curso do Danúbio para redirecionar água em direção à área utilizada pela usina. Entre as medidas esteve o emprego de estruturas e embarcações carregadas com pedras para modificar o fluxo do rio.
As intervenções chegaram a produzir uma melhora temporária nas condições de abastecimento de água da instalação. No entanto, as previsões indicavam que o nível do Danúbio continuaria caindo, tornando cada vez mais difícil manter o segundo reator em operação.
Na prática, as medidas emergenciais apenas ganharam tempo. A persistência da seca acabou levando à retirada da segunda unidade.
Romênia perde uma importante fonte de eletricidade
A paralisação simultânea dos dois reatores cria uma pressão significativa sobre o sistema elétrico.
Cernavodă possui duas unidades de aproximadamente 706 megawatts cada. Juntas, elas respondem normalmente por cerca de um quinto da geração de eletricidade do país.
Para compensar a perda, o governo romeno está recorrendo a outras fontes disponíveis e aumentando o uso das interligações elétricas com países vizinhos.
Uma usina movida a lignito, com capacidade de cerca de 330 megawatts, foi acionada, enquanto as autoridades procuram aproveitar ao máximo a geração eólica e hidrelétrica disponível. A Romênia também dispõe de aproximadamente 4 gigawatts de capacidade de intercâmbio com redes elétricas de outros países.
O governo declarou estado de emergência no setor energético durante agosto e pediu redução voluntária do consumo, especialmente nos períodos de maior demanda.
Ucrânia já começou a fornecer eletricidade
A Romênia também passou a recorrer ao mercado regional de energia.
Depois que o primeiro reator de Cernavodă foi retirado de operação, a Nuclearelectrica começou a comprar eletricidade produzida na Ucrânia. A operação conta com a participação da Energocom, empresa estatal da Moldávia, e foi anunciada no início de agosto como uma forma de compensar parte da perda de geração nuclear.
Essa importação ganhou importância ainda maior com a paralisação da segunda unidade.
Isso não significa, porém, que a Romênia esteja sem eletricidade. As autoridades afirmam que a demanda pode continuar sendo atendida por uma combinação de geração nacional, importações e medidas de gestão do consumo. O desafio está em substituir temporariamente uma fonte de geração de grande porte e relativamente estável.
A crise não é exclusivamente romena
O problema do Danúbio também afeta o setor energético de outros países.
Na Hungria, a usina nuclear de Paks, que igualmente utiliza a água do rio para resfriamento, sofreu forte redução de produção diante dos níveis excepcionalmente baixos do Danúbio. As autoridades húngaras chegaram a adotar medidas de engenharia para tentar elevar o nível da água próximo às estruturas de captação.
A situação revela uma vulnerabilidade compartilhada por instalações nucleares e térmicas que dependem de grandes rios.
Em períodos de seca prolongada, a mesma condição climática pode reduzir a disponibilidade de água justamente quando temperaturas elevadas aumentam a demanda por eletricidade.
O efeito combinado da seca e do calor
A crise energética ocorre em meio a uma sequência de temperaturas elevadas e precipitações insuficientes em partes da Europa.
Esse cenário afeta diferentes fontes de geração ao mesmo tempo.
A produção hidrelétrica pode cair quando os reservatórios e rios têm menos água. Usinas nucleares e térmicas que utilizam rios para resfriamento também podem precisar reduzir sua produção. Paralelamente, o calor intenso tende a elevar o consumo de eletricidade devido ao uso de sistemas de refrigeração.
O resultado é uma combinação particularmente desfavorável: a demanda pode aumentar enquanto algumas fontes importantes perdem capacidade de geração.
O episódio expõe um desafio para a energia nuclear
O caso de Cernavodă também amplia o debate sobre a adaptação das usinas nucleares às mudanças nas condições climáticas.
A energia nuclear é uma fonte de geração contínua e de baixa emissão de carbono, mas determinadas instalações dependem fortemente de rios, lagos ou outras fontes de água para o resfriamento.
A redução do nível dos rios não significa que a tecnologia nuclear tenha deixado de ser segura. O que o episódio demonstra é que a disponibilidade de água precisa ser considerada como parte da segurança e do planejamento energético de longo prazo.
A Reuters informou que a situação no Danúbio está levando especialistas e autoridades da região a considerar soluções de resfriamento menos dependentes das condições dos rios.
Um problema que pode durar além da seca atual
Ainda não há uma data definida para a retomada da geração dos dois reatores.
O retorno dependerá das condições hidrológicas e da existência de água suficiente para garantir a operação dentro dos parâmetros de segurança.
Isso significa que a duração da crise energética dependerá, em grande medida, da evolução das chuvas e do nível do Danúbio.
Caso a recuperação do rio seja lenta, a Romênia poderá precisar manter por mais tempo uma combinação de importações e geração alternativa.
O que muda para a Europa
O episódio de Cernavodă possui importância além das fronteiras romenas.
O sistema elétrico europeu é interligado, permitindo que países compensem parte de suas necessidades por meio de importações e exportações.
Quando uma grande instalação deixa de produzir, outros mercados podem ajudar a compensar a perda. Entretanto, se vários países enfrentarem simultaneamente problemas provocados pelo calor e pela seca, a capacidade de compensação regional pode ficar mais limitada.
É justamente essa possibilidade que torna a situação do Danúbio relevante para o planejamento energético europeu.
Não há emergência radiológica
Apesar da dimensão da crise energética, é importante separar os fatos.
Não há indicação de acidente nuclear em Cernavodă.
Os dois reatores foram colocados em condição segura como medida preventiva diante da redução da disponibilidade de água para o resfriamento. As autoridades informaram que a operação não representa ameaça à população ou ao meio ambiente.
A principal consequência neste momento é energética e econômica: a Romênia precisa substituir temporariamente uma parcela significativa de sua geração elétrica.
Um alerta provocado pelo próprio rio
O desligamento de Cernavodă mostra como a segurança energética pode depender de fatores que estão fora das instalações de geração.
A usina continua tecnicamente disponível para produzir eletricidade, mas a condição excepcional do Danúbio impede que os reatores operem normalmente.
O caso também evidencia como eventos climáticos extremos podem produzir efeitos em cadeia: menos água, menor geração hidrelétrica, limitações em usinas que utilizam rios para resfriamento, maior necessidade de importação e pressão adicional sobre o sistema elétrico.
Para a Romênia, essa combinação já deixou de ser uma possibilidade futura.
Os dois reatores de Cernavodă estavam sendo retirados de operação, deixando temporariamente a principal fonte nuclear do país fora da rede. Enquanto aguarda uma recuperação das condições do Danúbio, a Romênia terá de equilibrar seu sistema elétrico com outras fontes de geração, importações e medidas de contenção do consumo.
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