Raimundo Cutrim, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-secretário de Estado no Maranhão, tornou-se o ponto de convergência de duas investigações sensíveis no Supremo Tribunal Federal. Na terça-feira (11 de agosto), a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro Alexandre de Moraes em endereços ligados a ele. A operação o aponta como a principal fonte de informações sobre deslocamentos, veículos e esquema de segurança do ministro Flávio Dino e de sua família em São Luís. Ao mesmo tempo, Cutrim já respondia, em prisão domiciliar determinada pelo próprio Dino, por suspeita de obstrução da Justiça no inquérito sobre o assassinato de um empresário em 2022.
A apuração sob Moraes começou depois que a segurança institucional do STF alertou, em 2025, sobre monitoramento ilegal dos deslocamentos do ministro no Maranhão. Publicações do blogueiro Luís Pablo Conceição Almeida passaram a divulgar placas de carros oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão, dados de agentes de proteção e indícios de que veículos particulares também estavam sendo acompanhados. Em março de 2026, a PF apreendeu aparelhos do blogueiro. A análise do material revelou conversas com Cutrim, então secretário extraordinário de Assuntos Legislativos do governo Carlos Brandão. Segundo a Polícia Federal, ele teria usado a condição de agente público para acessar sistemas restritos e repassar imagens e informações que embasaram as reportagens.
Cutrim já se encontrava sob restrições desde julho. Flávio Dino, relator do inquérito sobre o homicídio do empresário João Bosco Pereira Sobrinho — morto a tiros em agosto de 2022 na área externa de um prédio comercial em São Luís —, determinou sua prisão domiciliar com tornozeleira, o afastamento do cargo e buscas que resultaram na apreensão de dezenas de armas. O autor confesso do crime, Gilbson César Soares Cutrim Júnior, parente distante de Raimundo, foi condenado a 13 anos. Posteriormente, ele e familiares passaram a gravar depoimentos e áudios em que relatam propostas de vantagens financeiras e materiais para retirar de depoimentos qualquer menção a nomes ligados ao grupo político do atual governador, entre eles o de Daniel Brandão, presidente do Tribunal de Contas do Estado e sobrinho de Carlos Brandão.
O caso do assassinato chegou ao STF após habeas corpus e alegações de possíveis interferências. Dino assumiu a relatoria e determinou o compartilhamento de provas obtidas em outras investigações, inclusive material do celular do senador Weverton Rocha apreendido no inquérito sobre desvios no INSS, relatado por André Mendonça. A sequência temporal reforça a conexão entre as frentes: o monitoramento de Dino se intensificou dias depois de o ministro assumir a supervisão do homicídio.
Nesta quarta-feira (12), a defesa de Cutrim divulgou nota pública em que classifica o cliente como “reconhecidamente inimigo de Flávio Dino” e afirma que as operações fazem parte de uma “onda de terror eleitoral”. Os advogados destacam que a decisão de Moraes se tornou pública por meio de vazamentos de trechos de autos sigilosos e reforçam a crítica de que se investiga a fonte jornalística, e não a denúncia original sobre o uso dos veículos. Negam qualquer participação de Cutrim nas movimentações financeiras de R$ 100 mil citadas na apuração.
Entidades de imprensa reagiram com preocupação. A Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Abert e a Aner alertaram que a identificação forçada de fontes e a realização de buscas a partir de material jornalístico representam risco à liberdade de imprensa. Nesta quarta-feira, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) classificou a medida como “grave ameaça” à liberdade de imprensa no continente. Do lado do ministro, a assessoria de Flávio Dino reitera que o monitoramento ilegal expôs itinerários, agentes de segurança e até crianças da família, e nega qualquer uso irregular de veículos cedidos no âmbito de acordos de cooperação entre o STF e tribunais estaduais.
O episódio ocorre em um momento de forte polarização política no Maranhão. Carlos Brandão, que foi aliado de Dino e o sucedeu no governo, rompeu com o grupo do ministro. O inquérito do assassinato passou a ser mobilizado na pré-campanha eleitoral, com questionamentos públicos sobre a imparcialidade de Dino para relatar fatos que atingem adversários do estado que ele governou. Interlocutores do ministro sustentam que ele não se enquadra nas hipóteses legais de suspeição ou impedimento.
As investigações seguem sob sigilo em gabinetes distintos — Moraes no caso do monitoramento e Dino no do homicídio. Raimundo Cutrim permanece como o elo mais visível entre elas. O desfecho deve produzir efeitos não apenas na esfera criminal, mas também no equilíbrio de forças políticas no Maranhão e no debate sobre os limites da atuação do Supremo quando a segurança de seus integrantes e a liberdade de informação se cruzam.
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