Los Angeles – Um programa pouco conhecido da Marinha dos Estados Unidos, em parceria com a University of Southern California (USC), revela uma prática que tem gerado debates éticos intensos: corpos doados para pesquisa científica e educação médica estão sendo utilizados para treinar equipes cirúrgicas das Forças de Defesa de Israel (IDF). A investigação, iniciada por jornalistas estudantes da própria USC Annenberg Media, expõe contratos milionários e questiona o consentimento das famílias e doadores.
Desde o final de 2017, a USC recebeu mais de US$ 860 mil da Marinha americana pela cessão de pelo menos 89 cadáveres “frescos” (fresh tissue), ou seja, não embalsamados, ideais para simulações realistas de trauma. Destes, pelo menos 32 foram destinados especificamente ao treinamento de equipes médicas israelenses no Navy Trauma Training Center (NTTC), localizado no Los Angeles General Medical Center, hospital afiliado à universidade.
Treinamentos e Procedimentos
Os treinamentos simulam cenários de combate, como ferimentos por arma de fogo e explosões de dispositivos improvisados (IEDs). Os corpos são usados em laboratórios de dissecação de tecidos frescos e, em alguns casos, perfundidos com sangue artificial para replicar as condições de pacientes vivos.
Equipes israelenses – compostas tipicamente por quatro cirurgiões, um anestesista e um enfermeiro de centro cirúrgico – participam de cursos cerca de quatro vezes por ano. O programa existe há anos, com registro de atividades desde 2013, e os contratos foram renovados mesmo após a divulgação inicial da reportagem, em outubro de 2025.
Origem dos Corpos e Consentimento
Muitos dos cadáveres têm origem no programa de doação anatômica da University of California San Diego (UCSD), que os transfere para a USC. Doadores e familiares assinam autorizações para “pesquisa e educação médica”, mas não há menção explícita ao uso por forças militares estrangeiras.
Médicos da Keck School of Medicine da USC, que pediram anonimato, descreveram a situação como “horrível” e uma “traição” aos doadores. “É necessário consentimento informado para algo assim”, afirmou um deles.
Posição das Instituições
A USC defende que o programa segue “padrões legais e éticos aplicáveis”. Em nota, a instituição afirma que os corpos são obtidos conforme as normas vigentes.
A Marinha dos EUA, por sua vez, confirma a parceria de longa data com a IDF para capacitação em trauma, visando preparar equipes cirúrgicas de vanguarda. O NTTC foi criado para oferecer experiência intensiva em atendimento a traumas graves, beneficiando tanto militares americanos quanto aliados.
Questões Éticas no Centro do Debate
A controvérsia ganha força pela falta de transparência. Organizações como o CAIR-LA (Council on American-Islamic Relations) condenaram a prática, exigindo maior accountability e questionando o uso de instalações públicas em um hospital do condado de Los Angeles.
Críticos argumentam que, mesmo sendo legal, o arranjo levanta dilemas morais sobre a dignidade dos mortos e o destino final de doações altruístas.
Repercussão
Documentários como o da AJ+ (“Israeli Military Medics Are Training On Dead Americans”) amplificaram o caso, entrevistando jornalistas estudantes e médicos envolvidos. Relatos indicam que alguns corpos podem ter vindo de pessoas sem identificação ou famílias não localizadas, prática considerada antiética por entidades médicas quando não há consentimento claro.
O caso reacende discussões mais amplas sobre o uso de cadáveres em treinamentos militares – prática comum em diversos exércitos quando simuladores não bastam, mas que ganha contornos sensíveis ao envolver forças estrangeiras em solo americano e em meio a conflitos internacionais.
O Futuro do Programa
Enquanto a USC e a Marinha mantêm o programa ativo – com contratos vigentes até 2026 –, familiares de doadores e parte da comunidade acadêmica cobram respostas: até que ponto o consentimento genérico para “ciência” autoriza usos tão específicos?
A transparência total nos formulários de doação e o rastreamento dos corpos podem ser os próximos passos exigidos pela opinião pública.
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