EUA propõem tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e colocam o Pix no centro da mira comercial de Trump

TimeCras
Roberto Farias
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Brasília, 2 de junho de 2026 — O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu a investigação aberta em julho de 2025 sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e propôs aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre diversas mercadorias brasileiras importadas pelos EUA. O documento, divulgado nesta segunda-feira, lista uma série de práticas que Washington considera “desrazoáveis” ou discriminatórias, com o sistema Pix ganhando relevo como exemplo de suposta barreira ao comércio americano.

A medida ainda não está em vigor. O USTR abriu prazo para audiência pública no dia 6 de julho, quando interessados poderão apresentar argumentos. Depois disso, caberá ao presidente Donald Trump a decisão final, que pode incluir isenções para produtos estratégicos para a economia americana, como carne, café, frutas, aeronaves e terras raras.

O que motivou a investigação?

Iniciada a pedido direto de Trump, a apuração abrange seis grandes frentes: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais concedidas a outros países, aplicação de leis anticorrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

No núcleo da queixa sobre pagamentos digitais está o Pix, lançado pelo Banco Central em novembro de 2020. O sistema instantâneo, gratuito ou de custo muito baixo, já é usado por cerca de 93% dos adultos brasileiros e movimenta trilhões de reais por ano. Para o governo americano, o Banco Central atua simultaneamente como regulador, operador e “dono” do sistema, criando uma vantagem injusta em relação a soluções privadas estrangeiras.

Empresas como Visa, Mastercard, Apple Pay e Google Pay argumentam que perderam participação de mercado significativa no Brasil justamente por causa do Pix. Enquanto cartões de crédito cobram taxas que podem chegar a 3-5% em transações no varejo, o Pix permite transferências instantâneas 24 horas por dia sem custo para o usuário final na maioria dos casos. Essa eficiência, segundo Washington, restringe o acesso de firmas americanas e reduz receitas de intermediários financeiros.

Resposta brasileira e soberania tecnológica

O Banco Central e o governo Lula têm rebatido as críticas com veemência. Autoridades brasileiras defendem que o Pix é uma infraestrutura pública, similar a um sistema de compensação ou ao próprio dólar em transações americanas, e não uma empresa estatal em concorrência desleal. Participação obrigatória de grandes instituições financeiras é vista como medida de inclusão e eficiência, não de protecionismo.

Especialistas brasileiros argumentam que o sucesso do Pix representa uma inovação que outros países tentam replicar — inclusive nos Estados Unidos, onde sistemas como FedNow buscam oferecer algo semelhante. Para Brasília, a pressão americana reflete mais a perda de hegemonia no setor de pagamentos do que uma violação comercial propriamente dita.

Contexto mais amplo da tensão

Esta não é a primeira rodada de tarifas contra o Brasil na segunda administração Trump. Em 2025, o presidente chegou a anunciar medidas de até 50% em retaliação ao que chama de “perseguição política” contra Jair Bolsonaro. Parte dessas tarifas foi ajustada ou parcialmente suspensa após negociações e decisões judiciais nos EUA. A nova proposta via Seção 301 tenta dar base técnica e legal mais sólida à pressão, misturando questões comerciais tradicionais com temas digitais e ambientais.

Para o Brasil, os Estados Unidos representam o segundo principal parceiro comercial. Exportações como soja, minério de ferro, petróleo, carne e aviões podem ser afetadas, embora o governo brasileiro já antecipe negociações para ampliar as exceções.

O que pode acontecer agora?

Analistas avaliam que o governo Lula buscará diálogo direto com a administração Trump, possivelmente oferecendo concessões em propriedade intelectual, pirataria ou acesso a etanol, em troca de alívio tarifário. Ao mesmo tempo, o Itamaraty deve reforçar contestações na Organização Mundial do Comércio (OMC), questionando a legitimidade unilateral da Seção 301.

Enquanto isso, o Pix segue como símbolo de soberania tecnológica brasileira: amado pela população por sua praticidade e atacado no exterior justamente pelo que tem de mais revolucionário — ser barato, rápido e controlado publicamente.

A tarifa de 25% ainda está longe de ser definitiva, mas já sinaliza que a disputa comercial entre os dois países deve se estender por meses, misturando economia, tecnologia e política.


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